42 anos entre exílio e prisão: o obstinado ucraniano Danylo Shumuk

A trajetória de vida de Danylo Shumuk foi daquelas que ninguém deveria ter vivido. Marcada por injustiças e desumanidades, sua vida, se é capaz de ser resumida em uma palavra, eu diria, com toda certeza, que Danylo foi um obstinado.

Danylo Shumuk nasceu no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, em Boremschyna, Galícia Volynya, Ucrânia (atual Província de Volyn). Em 1918, essa região foi dominada pela Segunda República Polaca, que impôs um processo severo de “polonização”, desrespeitando a autonomia étnica existente nesse território, o que contribuiu com os conflitos entre poloneses e ucranianos.

Aos 17 anos, ainda em sua terra natal, Danylo iniciou sua atuação contra a tirania polonesa. Durante 1933, foi preso 4 vezes e encarcerado por algumas semanas pela polícia polonesa. Seu irmão, Anton, que trabalhava para uma empresa ferroviária polonesa, nessa época, foi condenado pelos soviéticos como inimigo do povo. Cumpriu a pena, pelo simples fato de trabalhar dentro do sistema capitalista. Danylo, nesse momento, ficou conhecido por ser irmão de um inimigo do povo.

Em 1934, foi preso novamente, enquanto aguardava seu julgamento na prisão de Kovel. No ano seguinte, registrava-se sua condenação a 8 anos na prisão de Lomza, Polônia, por ter atuado no Partido Comunista da Ucrânia Ocidental. Devido a uma onda de anistia, sua pena foi reduzida para um terço, ou seja, por cerca de três anos dos 8 que tinha sido condenado. Danylo, entretanto, foi remanejado para outra prisão polonesa, Bialystok, sendo libertado apenas em 1939.

Com sua liberdade e de volta para sua terra natal, Danylo foi convocado para o Exército Vermelho composto por prisioneiros dos campos de concentraçãoque devido ao ataque alemão foram convertidos em unidades militares penais. Sem instrução militar e sem armas, Danylo e seus colegas “militares” foram obrigados a lutar nas missões mais perigosas e suicidas, tendo seus oficiais comunistas apontando metralhadoras nas suas costas para que não desertassem ou recuassem. Foi capturado pelas tropas alemãs, em 1941, e cumpriu meses de pena num campo de concentração para prisioneiros de guerra soviéticos nas proximidades de Poltava.

Entre prisões e exílios

Notícia da emigração para o Canadá na Imprensa Francesa


Só em 1987 depois de ter cumprido a pena nos campos e no exílio pôde emigrar para o Canadá

Danylo Shumuk fugiu do campo e retornou à Boremschyna, juntando-se ao Exército Insurgente Ucraniano (antissoviético e antialemão), em 1943, ao saber do Holodomor (que se tratou de fome artificial causada pelo Governo Soviético aos ucranianos) que até então desconhecia. Já em Kiev, em 1945, foi capturado pelos soviéticos e teve um julgamento secreto num tribunal militar que lhe condenou à morte. A sentença foi convertida em 20 anos de prisão em campos de trabalhos forçados na Sibéria (Campo n° 3 – Norilsk) e na prisão de Vladimir, próxima de Moscou.

Após uma década, em 1956, Danylo foi libertado e voltou para casa. No ano seguinte, em 1957, foi preso outra vez por ter se recusado a ser informante da KGB (Comitê de Segurança de Estado, do Governo Soviético), acusado de agitações antissoviéticas. O julgamento aconteceu em 1957 na cidade de Lutsk, sentenciando-lhe a 10 anos de trabalhos forçados em dois campos de concentração na Sibéria (Vorkuta e Taishet). Cumpriu sua pena até 1967, quando se tornou livre. foi solto.

Em 1968, conheceu alguns ativistas políticos como Ivan Svitlychny e sua irmã, Nadiya Svitlychna, futura esposa de Danylo. Em 1972, foi preso mais uma vez por escrever suas memórias do cárcere, julgado em Lviv e condenado a 10 anos em campos de regime especial na Mordóvia, Rússia, acrescidos de 5 anos de exílio no Cazaquistão na condição de reincidente particularmente perigoso ao regime soviético.

Nos campos da Mordóvia promoveu movimentos para o reconhecimento da condição de presos políticos para todos que estavam ali concentrados. Em 1972, renunciou sua cidadania soviética, e seis anos depois, em 1979, contribuiu com o monitoramento dos Acordos de Helsinque dentro dos campos ao se juntar ao Grupo Ucraniano de Helsinque. Danylo tentou várias vezes a anistia junto ao governo soviético, afirmando que viajaria para o Canadá ao encontro de sua família.

Em 1980, foi transferido para um regime especial no campo n° VS-389/36 em Perm; depois para o n° VS-389/35 em Minsk, onde cumpriu um regime mais severo. Em 1982, foi levado para a região dos montes Urais, no Cazaquistão, onde cumpriu seu exílio. Encarcerado, o governo canadense tentou várias vezes a sua libertação. Só em 1987 depois de ter cumprido a pena nos campos e no exílio pôde emigrar para o Canadá.

O retorno às origens

Os escritos de Danylo foram contrabandeados enquanto estava preso e exilado, chegando ao restante do mundo através de publicações. Além do Horizonte oriental (1974) e Pena de prisão perpétua: memórias de um prisioneiro político ucraniano (1984), conhecido também na versão Ocidental como Sentença de Mortesão seus registros que primeiro foram publicados em ucraniano e depois em inglês. Também escreveu Do Gulag para um mundo livre. Além disso, há um filme lançado em 1994 sobre ele intitulado Danylo Shumuk, dirigido por Mykola Mashchenko.

Em 2002, Danylo voltou à Ucrânia para viver com sua filha. Perdeu 42 anos de sua vida entre prisões polonesas e soviéticas, campos de guerra nazista, colônias penais soviéticas e exílios forçados. Ele faleceu em 2004, em Krasnoarmiisk, na Ucrânia.

Referências consultadas

CHRONICLE OS CURRENS EVENTS. Disponível em: <https://chronicle-of-current-events.com/2021/04/23/repression-in-ukraine-december-1972-28-7/>. Acesso em: 29 mai. 2021.

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?do=search&w=danilo >. Acesso em: 21 mai. 2021.

ENCICLOPEDIA OF UKRAINE. Disponível em: < http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CS%5CH%5CShumukDanylo.htm>. Acesso em: 29 mai. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.