A história de Alla Horska pela liberdade além da arte

A personagem deste artigo é uma mulher resiliente, que jamais pode ser esquecida. Alla Horska, além de pintora, foi uma combatente dos direitos civis e humanos do movimento dos anos 1960 durante a repressão do Governo Soviético na Ucrânia. Por isso, pagou as consequências com a própria vida.

Boa parte das obras de Alla Horska foram destruídas pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, através das mãos do Partido Comunista sob a justificativa de que seu trabalho era “ideologicamente hostil e profundamente alheio aos princípios do realismo socialista” (SHEVELEVA, 2021), entretanto, alguns exemplares ainda restam para serem apreciados.

Alla Horska e suas origens

Alla Horska – ou Gorska, como é conhecida em algumas fontes – nasceu nos arredores de Kyiv, em setembro de 1929. Seu pai era ator e sua mãe, professora infantil. Sua infância foi bem austera, principalmente entre os anos de 1941 a 1943, quando, junto de sua mãe, passaram pelos invernos mais rigorosos. Isso se deu em razão do bloqueio de alimentos imposto pelo regime stalinista. Sua família foi forçada a se mudar para várias regiões, por causa das ordens do governo; ou seja, Gorska foi exilada com sua família muito antes de saber o que isso significava.

Casou-se em 1952 com o artista Victor Zaretsky, e formou-se no Instituto de Arte Estadual de Kyiv, onde lapidou suas aptidões. Pintava em telas, cerâmicas e produzia mosaicos. Nesse período, dividiu um estúdio com outros artistas, no qual discutiam sobre tendências artísticas e ideias sociopolíticas. Em 1959, começou seu envolvimento na militância ao se ingressar no Sindicato dos Artistas da Ucrânia.

Os primeiros passos de Alla Horska

Em 1962, foi cofundadora do grupo Clube da Juventude Criativa. A partir desse momento, Alla Horska denunciou, com a ajuda de Vasyl Simonenko (brutalmente espancado depois disso) e Les Tanyuk, as valas comuns não marcadas de assassinados pela polícia secreta soviética, NKVD, como inimigos do Estado Soviético nos cemitérios de Bykivnia, Lukyanivski e Vasylkivski.

A sua atuação em questões políticas não parou por aí. Em 1967, protestou contra o julgamento ilegal do jornalista Viatcheslaw Tchornovil (já apresentado em artigo anterior) em Lviv. No ano seguinte, foi uma das signatárias da carta endereçada ao Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, exigindo o fim da ilegalidade jurídica dos julgamentos. A partir desse momento, começou a ser perseguida, bem como as demais 138 pessoas que assinaram tal documento.

Em 1968, acusada de liderar um movimento terrorista, que jamais existiu, que supostamente contava com a ajuda de organizações ocidentais contra o regime soviético, Alla Horska foi expulsa do Sindicato dos Artistas da Ucrânia. Dois anos depois, em 1970, foi convocada a testemunhar no julgamento ilegal do historiador Valentin Moroz – personagem que já contei sobre sua trajetória aqui no blog – porém se recusou por se tratar de procedimento juridicamente sem validade. Desde a fundação do Clube da Juventude Criativa até este momento, ela ajudou como pode, as famílias das vítimas dos presos políticos.

A execução Alla Horska

Alla Horska foi brutalmente assassinada em novembro de 1970 no apartamento de seu sogro. As circunstâncias de sua morte seguem misteriosas até os dias de hoje. A KGB alegou que ela foi morta pelo seu sogro com um golpe na nuca. Seu sogro, foi encontrado, posteriormente, numa estação de trem com a cabeça decepada.

No funeral de Alla Horska, não foi permitido a abertura do caixão, tampouco os familiares puderam escolher o local do sepultamento, o qual foi indicado pelas autoridades soviéticas. Mesmo assim, e por isso, houve protestos contra o governo em que contou com a participação de várias personalidades. Muitas delas discursaram publicamente, porém se tornaram perseguidas, pois a KGB passou a vigiá-las. O funeral de Alla Horska foi caracterizado como um “ato nacionalista”, tendo em vista a presença da KGB no momento.

Em seu funeral, não foi permitido abrir o caixão ou escolher o local, que fora indicado pelas autoridades. Mesmo assim, foi uma manifestação de protesto contra o Governo Soviético, tendo várias personalidades discursando, que depois disso, passaram a ser vigiadas pela KGB, que também se fez presente naquele momento e caracterizou o funeral como um ato nacionalista.

Da morte de Alla Horska à contemporaneidade

“Автопортрет з сином”, 1960

Depois da desintegração da URSS, o dossiê de Alla Horska foi parcialmente destruído. O que sobrou desse documento foi publicizado em 2010 através dos esforços de seu filho, Oles Zaretsky. Entretanto, até olhos menos atentos percebem que existem várias contradições nas informações (entre elas, a de que o seu avô, Ivan, idoso e adoentado ter golpeado sua mãe com um machado, objeto do crime, segundo o relatório e depois disso ter caminhado vários quilômetros até cometer “suicídio” nos trilhos), além de várias lacunas, bem como simetrias com outros assassinatos executados pelo regime soviético russo.

O legado de Alla Horska extrapola o tempo. Ela resistia através da arte, que era a sua principal forma de expressão, inclusive para pedir mais liberdade para os ucranianos. Suas obras, atualmente, fazem parte de coleções na Ucrânia, tanto nas cidades de Kyiv quanto em Lviv, além de museus em Berlim, na Alemanha. Alla Horska foi uma das ativistas que se recusou a depor no julgamento de Valentin Moroz, e de protestar contra o julgamento ilegal de Viatcheslaw Tchornovil, que já dediquei um artigo aqui no blog para cada um.

Вітраж “Шевченко. Мати”, до 150-річчя Кобзаря

Referências consultadas

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Horska, Alla Oleksandrivna. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/1113894485>. Acesso em: 16 dez. 2021.

EUROMAIDAN PRESS. Dissident artist Alla Horska murdered 45 years ago. Disponível em: <http://euromaidanpress.com/2015/12/29/dissident-artist-alla-horska-murdered-45-years-ago/>. Acesso em: 16 dez. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

УКРАЇНСЬКИЙ ІНТЕРЕС. Алла Горська – вбита за любов до України. / INTERESSE UCRANIANO. Alla Horska foi morta pelo seu amor pela Ucrânia. Mariana Sheveleva. Disponível em: <https://uain.press/blogs/alla-gorska-vbyta-za-lyubov-do-ukrayiny-1081487>. Acesso em: 16 dez. 2021.