Chile-América e o exílio chileno

Hoje me interessa falar aqui sobre a fonte de uma pesquisa que iniciei há pouco tempo e que tem me instigado no que diz respeito ao exílio chileno e suas múltiplas particularidades. Trata-se da Revista Chile-América, que pode ser visualizada na imagem acima.

Contexto e o exílio chileno

Chile-América é um dos projetos editoriais elaborados por exilados chilenos durante a ditadura militar de Augusto Pinochet no Chile (1973-1990). Muitos/as exilados/as deste contexto encontraram nos impressos um espaço de atuação e ferramenta de continuação de sua luta política, iniciada no país de origem.

A revista foi publicada pela primeira vez em 1974, um ano após a instauração do governo autoritário, e encerrou as atividades nove anos depois, em 1983, momento que marca uma série de protestos populares realizados no Chile contra a ditadura, o retorno de exilados/as e os debates sobre a abertura do processo democrático no país.

A sua sede foi Roma, capital italiana. Vale lembrar que exilados/as chilenos/as receberam asilo de países europeus e de outras partes do mundo devido ao fato de que a “via chilena para o socialismo”, programa de governo de Salvador Allende, o presidente deposto pelo golpe militar, conquistou inúmeros simpatizantes de partidos políticos e movimentos sociais para além da América Latina.

Características de Chile-América

Chile-América foi publicada mensalmente e nos idiomas espanhol, italiano e inglês. As suas primeiras edições tinham entre 20 e 60 páginas, totalizando 150 páginas no segundo ano de seu funcionamento. Ao longo de sua existência, a revista publicou 83 edições e 7.116 páginas que estão disponíveis no site “Portal do Socialismo Chileno”.

O projeto editorial dependeu da inscrição de leitores (assinantes) e do financiamento de setores políticos que o apoiavam para permanecer em atividade, o que não era uma tarefa fácil, visto que, o impresso atuou em um cenário de perseguição aos indivíduos que desenvolviam ações concebidas como contrárias aos militares.

Edições de Chile-América disponíveis no site “Portal do Socialismo Chileno”

Fundadores da Chile-América

Entre os seus fundadores e dirigentes têm-se intelectuais e políticos chilenos filiados ao Partido Democrata Cristão (PDC), a Esquerda Cristã (EC) e a Unidade Popular (UP). De início, o seu Comitê Editorial era composto por Bernardo Leighton Guzmán, Esteban Tomic, José Antonio Vieira Gallo e Julio Silva Solar, o qual foi o seu diretor até 1982. Benjamín Teplisky, Fernando Bachelet e Giovanni Spinelli entraram depois para a equipe.

As ideologias políticas de seus integrantes se relacionaram com o seu conteúdo e as suas formas de distribuição e publicação, no caso impressa. Afinal, nenhum impresso é isento de parcialidade e de intenções que se expressam em seu formato, fotografias, seções e demais fatores que o compõem. Todavia, apesar do posicionamento cristão presente entre os seus fundadores, estabeleceu-se contato com diversos grupos políticos.

Chile-América: Objetivos

Um dos objetivos de Chile-América era a formação de um pensamento crítico e de oposição ao governo de Augusto Pinochet e o fortalecimento de atividades de organização política e cultural de exilados. É interessante que a revista se colocou como um espaço de resistência e de encontro, o que possibilita refletir sobre as redes sociais e intelectuais estruturadas pela comunidade exilada.

O impresso entendeu que compreender as realidades e experiências latino-americanas era necessário para o estudo da própria História Chilena. A articulação com outros países da América Latina não foi uma exclusividade da revista Chile-América, pois muitos jornais e revistas da época adotaram postura semelhante. Um deles é o Mensaje, veículo de comunicação chileno e cristão que também contou com exilados/as em seu corpo editorial e se pronunciou contra a ditadura militar.

Para saber mais sobre Mensaje: https://e-migracaopolitica.com/feminismo-mensaje/.

Eixos temáticos da Revista

Os eixos temáticos da Chile-América englobavam à época discussões sobre as forças democráticas, as análises e releituras de lideranças políticas, a Igreja Chilena e a Democracia Cristã, bem como problemáticas da realidade latino-americana e mundial e direitos humanos.

Há que se ressaltar que o tópico “Direitos Humanos” recebeu testemunhos de mulheres e homens torturadas/os e perseguidas/os pelos militares. Outra questão que merece destaque é que a partir de 1980 a revista incorporou a seção “Problemas da Mulher”, que será investigada em futuros textos deste blog.

De modo geral, acredito que a leitura e análise desta revista pode contribuir para a ampliação da historiografia sobre os exílios latino-americanos, partindo de uma abordagem que articula exílio, política e impressos. Além disso, o estudo da fonte contribui para o enriquecimento da própria História do Chile, a partir do ponto de vista de uma historiadora brasileira, e se relaciona com as demandas de seu povo, que reivindica reparação histórica para os sujeitos perseguidos pelo autoritarismo.

Referências consultadas

MONSÁLVEZ ARANEDA, Danny Gonzalo; GÓMEZ ROJAS, Nicollett Andrea. Chile-América, 1974-1983: una revista del exilio chileno. Estudios, n. 39, p. 49-67, enero-junio 2018.

Capa de Chile-América

Fonte: Portal do Socialismo Chileno