CINEMA E GÊNERO NO EXÍLIO

Você sabia que o cinema chileno é uma ferramenta importante para se pensar o exílio?

A sétima arte foi censurada durante a ditadura militar de Augusto Pinochet; obras dos estúdios da Chile Films, empresa cinematográfica e televisiva da época foram queimadas. A partir disso, diversos cineastas partiram para o exílio em localidades como Alemanha, Canadá, Cuba, Finlândia, França, Moçambique e União Soviética.

Uma vez no estrangeiro, os cineastas exerceram atividades que denunciaram o autoritarismo da ditadura para o público internacional. Entre 1973 e 1983, foram realizadas 178 obras no exílio, sendo que a maioria delas criticou a violação dos direitos humanos cometida pelos militares. 

Nomes como o de Miguel Littin e Patricio Guzmán, dois consagrados cineastas chilenos, geralmente aparecem entre os protagonistas desse feito. No entanto, uma questão central é: como as mulheres participaram do cinema no exílio? Qual o papel das cineastas?

Neste texto, vou destacar a cineasta de animação e documentarista chilena, Angelina Vasquez. Ela nasceu em 1948, e estudou cinema no Chile e na Finlândia. Ademais, foi assistente dos dois cineastas citados anteriormente. A cineasta é uma das grandes referências femininas do cinema no exílio e  mostrou, em suas obras, como as experiências da resistência à ditadura militar foram marcadas por questões de gênero. 

Algumas de suas obras cinematográficos são: 1) Crônica de Salitre (1971); 2) Dois anos em Finlândia (1975); 3) Assim nasce um desaparecido (1977); e 4) “Gracias a la vida” ou pequena história de uma mulher maltratada (1980).

Gracias a la vida

Aqui optei por falar sobre a última obra citada de Angelina Vasquez – mulher da imagem fixada, por dois motivos. Primeiro, porque ela narra o desterro do ponto de vista do gênero. O segundo motivo, é pelo fato de que estou trabalhando nas minhas pesquisas o tema do exílio chileno feminino.

 “Gracias a la vida” ou pequena história de uma mulher maltratada é um longa metragem de 43 minutos, exibido em espanhol e finlândes, que conta a história de Silvia, mulher chilena que partiu para o exílio na FinlândiaNo longa, a experiência da personagem principal, Silvia, perpassou o trauma, a tortura e a prisão. 

Tanto é assim, que a exilada engravidou durante as sessões de tortura que sofreu nos centros da repressão. Isso impactou diretamente em todas as etapas psicológicas e socioeconômicas por ela vividas no desterro.

Essa obra começa com a chegada de Silvia ao aeroporto e a recepção de familiares e seu companheiro Julio, começando o seu exílio na Finlândia. Já de início, é possível perceber questões gerais que acometeram a comunidade exilada nas etapas iniciais do desterro. 

O quadro de Salvador Allende, presente no quarto dos dois personagens, por exemplo, evidencia a promessa do retorno comum às desterradas e aos desterrados. A necessidade de manter vínculos com o país de origem e continuar a militância na Finlândia indica que muitas mulheres e homens desejaram que, em período próximo, se concretizasse o retorno ao Chile. 

Os momentos de confraternização entre exiladas e exilados presentes no longa contém elementos culturais do Chile. Por exemplo, a música popular chilena. Por essa razão, a “nova canção chilena” é traço marcante dos trabalhos da cineasta. O nome da obra em questão faz menção à canção de Violeta Parra, protagonista do movimento, o que reforça o laço entre a comunidade exilada e o país de origem.

Violência de gênero

Ao longo da narrativa de Angelina, fica claro como a violência de gênero afetou diretamente a experiência de Silvia no desterro

Foi em uma conversa com a psicóloga, que ela demonstrou que enfrentou problemas relacionados ao novo idioma somados ao trauma gerado pelas violações sexuais sofridas durante sua prisão.

A protagonista vivenciou uma dupla tortura: o exílio e o estupro. O fato de Silvia não poder falar e tomar decisões sobre o seu corpo compreende a negação de sua humanidade. 

Mas também foi uma realidade de diversas outras mulheres perseguidas nas ditaduras militares no Cone Sul. 

Significa, além do mais, que, muita delas, perderam autonomia a partir da repressão sofrida nos países de origem, e que persistiu nos exílios. 

Silvia, personagem de Gracias a la vida

Os comportamentos de distanciamento de Silvia para com seu companheiro, Julio, mostram como a tortura sofrida transformou as suas relações pessoais. A cena do parto da protagonista foi mostrada, logo após um tenso diálogo dos dois sobre o comprometimento com a revolução e os camaradas chilenos e as dificuldades do desterro, principalmente, a desqualificação profissional. 

A conversa que tiveram, após o acontecimento, contudo, mostra que a distância entre eles diminuiu um pouco, pois ambos conversam sobre o regresso ao Chile e a possibilidade de construir um futuro em meio às dificuldades impostas pelo cenário autoritário.  Enfim, a maneira como a protagonista comporta-se diante da sua filha e do Julio indica a esperança e o desejo de regresso. 

Alguns considerações finais

“Gracias a la vida” destaca a consciência feminina no cinema do exílio e concebe mulheres como sujeitos políticos e sociais que se encontram entre as vozes da resistência. Ao final do longa-metragem aparece a imagem de um avião em uma pista de decolagem, o que nos permite pensar sobre os próximos passos da família.

Este assunto é um convite para que o desterro possa ser analisado a partir de experiências de gênero, assim como, as outras histórias das ditaduras militares; o que contribui, além disso, com a ampliação de percepções sobre esses acontecimentos históricos e suas implicações. 

Em conclusão, a estética visual de Angelina Vasquez evidencia como as vozes de mulheres que sofreram torturas ultrapassam fronteiras e estabelecem um lugar no mundo ao (re)construir uma identidade chilena constituída por perdas e esperanças.

Referências consultadas

Cine chileno en el exilio (1973-1983). Memoria chilena de la biblioteca nacional digital de Chile. Disponível em www.memoria chilena.cl.

Gracias a la vida (ou pequeno diário de uma mulher maltratada). Centro Cultural la Moneda. Cineteca Nacional de Chile. Disponível em https://www.cclm.cl/cineteca-online/gracias-a-la-vida-o-la-pequena-historia-de-una-mujer-maltratada/

VASQUEZ, Laura. El lente circular del exilio: (re)fundar la identidad chilena por el medio fílmico. Instituto de Estética – Pontificia Universidad Católica de Chile, 2013, pp.223-236.