Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris

No texto de hoje, falarei sobre o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris, criado em meados da década de 1970, por exiladas brasileiras que compunham, em sua maioria, organizações de esquerda e almejavam refletir sobre gênero e classe no contexto das ditaduras militares na América Latina. O grupo tinha como texto base o documento chamado “Por uma tendência feminina revolucionária”, assinado pelo Grupo Brasileiro de Mulheres Revolucionárias. Dessa forma, o material foi desenvolvido por militantes do Campanha, jornal fundado no Chile em 1972 e que tinha como objetivo fazer do exílio um espaço de luta contra o autoritarismo dos militares.

Somos um grupo de mulheres brasileiras vivendo na França, que sensibilizadas pelo movimento feminista internacional, resolveram reunir-se para debater, aprofundar e tomar uma real consciência da opressão específica que sofre a mulher nessa sociedade. Opressão essa que aparece não só na perpetuação dos “nobres” papéis que nos foram atribuídos – doméstica/esposa/mãe; mas no conjunto de nossas atividades e na nossa personalidade.                                                    

                                                                                         Círculo de Mulheres Brasileiras – 1976 

DITADURAS MILITARES E EXÍLIOS INTERNACIONAIS

A ditadura militar civil brasileira, instaurada em 1964, estabeleceu um sistema de repressão que matou, torturou e perseguiu diversos sujeitos considerados inimigos do Estado. A partir de 1968, período em que ocorreu a primeira fase do exílio brasileiro, diversos indivíduos foram asilados por países latino-americanos. Inicialmente, Montevidéu, no Uruguai, era a capital desse exílio. Porém, em 1970, ela se deslocou para Santiago, no Chile. O país vivenciava um clima de efervescência política e cultural com a eleição do marxista Salvador Allende e o seu programa de governo que implicava em esperança para as esquerdas da América Latina.

A experiência chilena era observada pelo mundo todo e, ao mesmo tempo, temida pelos EUA e pela elite do Chile que, financiaram um golpe militar contra o presidente. Esse golpe ocorreu em 11 de setembro de 1973. Depois desse acontecimento, exiladas e exilados foram para o desterro em países de África, Ásia e Europa, dando início à segunda fase do exílio brasileiro.

Nesse texto, então, destaco as exiladas brasileiras que foram recebidas na França e atuaram no Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris. Então, a primeira fase do exílio da ditadura brasileira circunscreveu-se em alguns países da América Latina, já a segunda, teve uma dimensão na Europa, especialmente em Paris. Ambas as fases, no entanto, possuem dimensões internacionais.

FEMINISMOS ENTRE 1960 E 1970 E EXILADAS BRASILEIRAS

Muitas exiladas latino-americanas tiveram contato com teorias feministas ocidentais durante as suas trajetórias na capital francesa, Paris. Um movimento iniciado na década de 1960 nos EUA, proporcionou espaço para que mulheres, principalmente as brancas e de classe média, construíssem núcleos de formação de consciência para discutir o que era “ser mulher”. Além disso, se pensar como um indivíduo diferente do homem universal, muitas vezes, representado na figura do sujeito cis, branco, hétero e sem deficiência.

Em 1968, o movimento ganhou corpo na França e possibilitou que brasileiras no exílio criassem os seus próprios grupos de conscientização, sendo o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris, um deles. As mulheres que compunham as organizações entenderam que os papéis de gênero eram uma construção social imposta pela estrutura que definia quais deveriam ser os comportamentos de ambos os gêneros nos espaços público e privado.

Entre elas, existia a ideia de “irmandade”, na qual se propunha que cada uma levasse outra mulher nas reuniões e assembleias das organizações. Seguindo tal perspectiva, todas deveriam participar das decisões do grupo; ressaltando a ideia de coletivo e união entre mulheres. As características aqui descritas, compreenderam diversos feminismos do que se chamou e aqui considero como de “segunda onda”

O contexto em que o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris estava inserido era semelhante ao do Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris, formado em 1972, também composto por exiladas. Escrevi um texto sobre ele para o blog e o indico para quem quer entender um pouco mais sobre os feminismos nos exílios – veja também. Outra dica é o artigo “Nosotras e o Círculo de Mulheres Brasileiras: feminismo tropical em Paris” das autoras Cristina Wolff e Joana Maria Pedro, onde as semelhanças e diferenças entre os grupos são investigadas. 

CARACTERÍSTICAS DO CÍRCULO DE MULHERES BRASILEIRAS

Embora tenha sido oficializado em 1976, no ano anterior, o Círculo de Mulheres Brasileiras publicou um boletim com o título “Agora é que são elas”, que se manteve até 1979. A instituição era composta por cerca de 100 mulheres e dividida em grupos e subgrupos que discutiram sobre vários temas. Sendo assim, uma vez por mês era realizada uma assembleia geral e suas atividades principais consistiam em assembleias e subgrupos.

Os materiais de autoria do grupo continham imagens arredondadas nas formas das mulheres e símbolos que se relacionavam ao nome “círculo”, que faziam referência ao “feminino” e sua estética e natureza. A palavra “círculo” também era oposição ao “quadrado”, associado ao conservadorismo da ditadura e seus apoiadores que se manifestavam em passeatas como a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. Inclusive, as figuras que ilustravam cenas de dor e tortura eram pontiaguadas, se aproximando dos símbolos tidos como conservadores.

O Círculo de Mulheres desenvolveu denúncias contra a ditadura militar, característica do feminismo brasileiro que manteve vínculos com a comunidade exilada. Nesse sentido, a tortura e demais formas de violação aos direitos humanos eram criticadas, afinal muitas de suas componentes eram mulheres de esquerda que encontraram no exílio uma maneira de continuar a militância iniciada no Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris – assim como outras instituições feministas da década de 1970 – fomentou os laços de solidariedade entre mulheres e possibilitou que estas refletissem sobre as suas próprias experiências de maneira individual e coletiva. Tanto é assim que, questionou os papéis de gênero socialmente construídos na sociedade brasileira e internacional e como eles se manifestavam nos partidos de esquerda aos quais estavam vinculadas.

A forma de organização política  foi uma das consequências das relações entre feminismos e exílios e constituiu como um importante instrumento de luta contra as opressões de classe e gênero, particularmente o feminino. O Círculo é produto de seu espaço-tempo. Logo, se aproximou do feminismo da segunda onda, iniciado em países europeus e norte-americanos – o que não significa que ele não tenha incorporado pautas de mulheres brasileiras em suas reivindicações. Assim, é interessante questionar sobre suas contribuições e limitações para podermos pensar a respeito dos feminismos nos dias atuais, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, pois, aliás, hoje em dia a militância feminista é internacional.

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

ABREU, Maira. Feminismo no exílio: o Círculo de mulheres Brasileiras em Paris e o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris, Editora Alameda, São Paulo, 2014.

BASTOS, Natalia. O Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris: uma experiência feminista no exílio. Usos do Passado – XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ, 2006, pp.1-6.

CAMARGO, Ayla. Mulheres no exílio x esquerda masculina marxista: diálogos (im)pertinentes à base do feminismo brasileiro. Anais do IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina. Imperialismo, nacionalismo e militarismo no Século XXI. 14 a 17 de setembro de 2010, Londrina, UEL, pp. 63-71.

PEDRO, J; WOLFF, C. Nosotras e o Círculo de Mulheres Brasileiras: feminismo tropical em Paris. ArtCultura, Uberlândia, v. 9, n. 14, jan.-jun. 2007, pp.55-69.