Cultura Digital

Cultura Digital e ensino

O tema da Cultura Digital é muito importante no contexto atual, pois estamos dia a dia imersos nos elementos do mundo digital. Por essa razão, os profissionais da História e da Educação não podem prescindir do debate a respeito da Cultura Digital. Afinal, a vida escolar, seja no Ensino Básico ou seja na Universidade, exige cada vez mais apropriação das tecnologias digitais por nós docentes e pelos estudantes.

Mas o que é Cultura Digital? Quais são os desafios e possibilidades para o ensino? Qual o papel de docentes em ambientes digitais? São estas questões que também venho estudando, porque elas instigam quem vive todos os dias, de segunda a segunda, no ciberespaço, para lembrar aqui um conceito do filósofo e sociólogo Pierre Lévy.

Cultura Digital e possibilidades para o ensino

Quando falamos em Cultura Digital, o que primeiro vem em sua mente? Computador/Notebook/Mac/Tablet/Kindle? Internet? Celular? Games? Quadrinhos? Redes e Mídias Sociais e Digitais? Inteligência Artificial? Sim, tudo isso está dentro desse conceito. Porém, é importante falarmos sobre as ferramentas que integram a Cultura Digital. Assim, começamos a perceber o mundo de outra maneira.

A Cultura Digital emergiu a partir do avanço das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) e com a ampliação do acesso à internet, computadores individuais e celulares que modificam todas as dimensões das nossas relações humanas, a sociedade e a cultura popular. Não é de hoje que as mídias, desde a quirografia (manuscrito), a tipografia (imprensa) e as eletrônicas e digitais, impactam a forma como as sociedades e culturas se desenvolvem em seus tempos.

Mais acima, mencionei o filósofo Pierre Lévy. Nos anos de 1990, ele definiu dois conceitos que são característico da Cultura Digital: ciberespaço e cibercultura. O ciberespaço é a rede que surge da interconexão mundial dos computadores. É tanto a infraestrutura material como o universo de informações e pessoas conectadas, que suporta tecnologias intelectuais que modificam nossas funções cognitivas como memória, imaginação percepção e raciocínio. Já o conjunto de técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamentos e valores que se desenvolvem com o crescimento do ciberespaço é o neologismo cibercultura.

 

“A introdução da escrita, da imprensa, do telégrafo, do rádio, do automóvel, da televisão ou da internet nos afeta de modos mais profundos do que meramente a nossa capacidade de enviar mensagens. Afeta, também, os modos como entendemos o mundo, e o próprio significado que palavras como ‘distância’, ‘velocidade’, ‘cidadania’, ‘direito’, ‘democracia’, ‘poder’, ‘informação’ e ‘sociedade’ passam a ter” (STRATE, 2019, p. 16).

Lance Strate, que me referi acima, introduz uma perspectiva sobre a ecologia das mídias, que leva a  uma análise do ambiente midiático e social a partir de alguns fatores. São aspectos fundamentais que devem ser não só observados como também problematizados:

  1. As formas de produção, controle e acesso sobre a informação e comunicação;
  2. O fluxo da comunicação e seus processos de interação;
  3. A disseminação da informação à distância e sua velocidade;
  4. Os sentidos envolvidos (visão, audição, tato);
  5. Os tipos de formas simbólicas empregadas (palavras, imagens, sons);
  6. O fluxo da comunicação e seus processos de interação.

A popularização das TDIC vem trazendo a necessidade de ressignificarmos o fluxo de construção do conhecimento, diversificando os modos de produção e acesso à informação. Além disso, no caso do ensino, elas abrem novas possibilidades de autonomia estudantil e, por sua vez, vários desafios sociais. Até porque, a Cultura Digital possibilita a nossa transformação em produtores capazes de criar e disseminar textos, imagens e vídeos tão facilmente quanto recebê-los. Não é isso que se passar com você leitor e leitora?

É importante lembrar que o ciberespaço rompe com a ideia de tempo e espaço, os quais são próprios para a aprendizagem e o ensino. Nesse sentido, é que os processos de aprendizagem são transformados em um sistema colaborativo, hiperconectado, descentralizado, criativos, lúdicos e relevantes. A Cultura Digital, portanto, é notadamente marcada pelas múltiplas oportunidades de aprendizagem e que podem ser potencializadas pelo ensino criativo, viabilizada pela interatividade e personalização das TDIC.

Entre muitas possibilidades da Cultura Digital, destaco a criação de podcasts colaborativos. Para algumas pessoas, pode ser um desafio, mas seguindo o roteiro abaixo vai dar certo! Quando a Cultura Digital é entendida como ferramenta didática e pedagógica pode estimular o protagonismo e autonomia dos estudantes (OUÇA AQUI). Tente acompanhando o passo a passo:.

Criando roteiros para podcast – 7 passos/1 dica

  1. Escolher uma assunto ou uma PAUTA
  2. Especifique TEMAS para seus alunos (ou permitir que eles especifiquem)
  3. Fomente a PESQUISA dos grupos
  4. Separe equipes e determine suas TAREFAS (metodologias ativas como atividades por times)
  5. Crie vários ROTEIROS – tipos como entrevista, programa ou documental. Por que fazer? Escrita, registro e orientação. Como fazer? Fonte Arial Black, tamanho 14, espaçamento 1,5, números por extensão (é um formato da rádio, feito para ser lido, 1 minuto por folha para ser impresso)

  6. Faça VINHETAS para o podcasts – sites como YouTube Library, Freesound e Soundsnap

  7. EDITE desde o início do roteiro seus podcasts bem fácil – app como Anchor, Spreaker Studio, Garage Band e Audacity (editor de som)
  8. DICA DE OURO: ouça podcasts!:

Cultura Digital: mediação-interação em Ambientes Digitais

Aos professores e professoras, historiadores (as), o objetivo de lecionar dá lugar à missão de orientar e facilitar a aprendizagem quando se trata das TDIC e da Cultura Digital. Há que se destacar que o processo de aprendizagem não acontece somente nas instituições escolares. Pelo contrário, ultrapassa os muros da escola, ou seja, pode ocorrer nos mais diversos contextos informais de escolarização.

Por este motivo, não basta às educadoras e educadores terem competências tecnológicas, saberem navegar na Internet ou dominarem habilidades no manuseio de algum software. É preciso, principalmente, ter competência pedagógica para fazer uma curadoria e leitura crítica das informações que se apresentam desorganizadas e difusas no ciberespaço.

A cooperação e colaboração na Cultura Digital se passa no bom processo de elaboração de perguntas norteadoras, as quais devem provocar a reflexão do conteúdo abordado, instigar a curiosidade do tema e direcionar para conclusões. Também é importante criar espaços de diálogo para que a “inteligência coletiva” possa emergir, planejando os tempos e momentos de interação em grupo. E, por fim, convém promover um espaço acolhedor e respeitoso para que diferentes vozes e visões sintam-se confortáveis, criando acordos de convivência claros e consensuais com o grupo de estudantes.

Para saber mais sobre o conceito de inteligência coletiva, sugiro a leitura do artigo Pierre Lévy: A questão é: “como usaremos as novas tecnologias de forma significativa para aumentar a inteligência humana coletiva?”. Para saber mais, acesse o artigo.

Retomando a Cultura Digital, de acordo com Monica Fantin e Pier C. Rivoltella (2010), trata-se da cultura da multimídia, com novos códigos, linguagens e estratégias de comunicação diferentes. Essa cultura é baseada na intermedialidade e na convergência das tecnologias digitais. Para esses estudiosos, a Cultura Digital também é uma cultura da portabilidade, pois os aparelhos estão se tornando cada vez menores, mais leves e mais potentes, isto é, através deles é possível fazer muitas coisas: conectar-se, comunicar-se, editar textos e imagens.

Vani M. Kenski também diz que a Cultura Digital é atual, emergente e temporal, integrando “perspectivas diversas vinculadas à incorporação, inovações e avanços nos conhecimentos proporcionados pelo uso das tecnologias digitais e as conexões em rede para a realização de novos tipos de interação, comunicação, compartilhamento e ação na sociedade” (KENSKI, 2018). Portanto, a Cultura Digital é virtual, transitando em camadas distintas nesse espaço, com conhecimentos, valores, práticas, temporalidades. Uma de suas características primordiais é a ruptura, pois a Cultura Digital, realizada pelos seus usuários, migra entre fronteiras, é transnacional, rompendo com os conceitos de tempo linear, espaço e território. As possibilidades e os desafios ligados ao tema estão presentes para professores e estudantes.

Referências consultadas

 

FANTIN, Mônica; RIVOLTELLA, Pier Cesare. Cultura digital e escola: Pesquisa e formação de professores. Campinas: Papirus, 2012.

KENSKI, Vani M. Verbete Cultura Digital. In: MILL, Daniel (org.). In: Dicionário Crítico de Educação e Tecnologias e de educação a distância. Campinas: Editora Papirus, 2018.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

STRATE, Lance. Introdução à ecologia das mídias. PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2019.