Emílio Maia, uma síntese de sua história

Quando iniciei meus estudos sobre os exilados políticos liberais do reinado de Dom Miguel, não esperava descobrir trajetórias de vidas pouco investigadas por historiadores brasileiros. A cada dia que pesquiso acerca desses sujeitos, fico entusiasmado com as descobertas. Vou escrever uma síntese da história de Emílio Joaquim da Silva Maia, representado na imagem acima, recuperada no site da Academia Nacional de Medicina, a quem devo os créditos.                                                                                                                                                                                                                                                – Luiz Gustavo 

Quem foi Emílio Maia?


Bacharel em Filosofia, médico, professor e escritor. 

Nascido em 1808, na capitania da Bahia, em Salvador, ano em que a família real portuguesa se transmigrara para o Brasil, na época Império luso-brasileiro. Era filho de Dona Joaquina da Rosa Costa e do português Joaquim José da Silva Maia. Até seus 16 anos, Emílio Maia viveu em Salvador e pôde vivenciar a Revolução Pernambucana de 1817 e a Independência do Brasil na província da Bahia entre 1822 e 1823.

Seu pai, Joaquim Maia, negociante da praça em Salvador e redator dos periódicos o Semanário Cívico e a Sentinela Bahiense, por razões políticas e econômicas, mudou-se para o Maranhão em 1823 e de lá seguiu viagem para a cidade do Porto, em Portugal, levando consigo sua família. Com sua mudança para Portugal, Emílio Maia interrompeu seus estudos no Brasil e ingressou no curso de Filosofia Natural, obtendo o título de bacharel em janeiro de 1824.

Experiência política, um exilado

A escrita da história (e seus obituários) sobre a vida de Emílio Maia quase sempre se refere que ele regressou ao Brasil em 1829, porém não enfatiza que ele retornou como exilado político. Esse período da trajetória dele é interessante, pois revela o contexto autoritário do regime de Dom Miguel, irmão de Dom Pedro I. A partir de um golpe de Estado, Dom Miguel assumiu o trono sendo aclamado rei absoluto em 1828 (ver mais). Nesse mesmo ano, houve resistência ao regime de Dom Miguel por parte do Exército constitucional, evento conhecido como “Revolução do Porto de 1828”. Emílio Maia entrou nessa história ao se engajar no Corpo de Voluntários Acadêmicos.
 
Por investida das perseguições dos partidários de Dom Miguel, miguelistas, o Exército constitucional partiu de debandada para a Espanha. Emílio Maia e seu pai, assim como milhares de cidadãos seguiram para o exílio e antes de 1829 quando chegaram no Brasil, fizeram um percurso na Inglaterra, na França, na Bélgica – sobre o registro dessa época em Memórias, ver minha dissertação de mestrado.
 
Ao permanecer meses no Rio de Janeiro, Emílio Maia depois viajou para a Europa e prosseguindo com seus estudos, obteve dois novos títulos: bacharel em Ciências Físicas e Matemática e, em 1833, o de doutor em Medicina pela Faculdade de Paris com a tese Essai sur le dangers de l’allaitement par les nourrices – Ensaio sobre os perigos da amamentação por enfermeiras.
 
Se ele vivenciou a guerra civil portuguesa entre liberais e absolutistas durante 1832 e 1834, não revelam as fontes até então pesquisadas por mim. O fato é que ele trouxe consigo uma experiência singular ao voltar para o Brasil já no período Regencial, em 1834, e permaneceu no país vivenciando parte desse período e pouco mais de duas décadas do Segundo Reinado; seu falecimento é registrado em 1859.

Atuação no Brasil: sociedades e periódicos científicos

Ao retornar, casou-se com Anna Rita da Silva Maia, filha de Gertrudes Mathildes da Costa e de Antonio da Costa. Conforme seu inventário post mortem, pesquisado por Lúcia Maria Cruz Garcia, ele teve seis filhos com Anna Maia, por nomes Anna Emília da Silva Maia, Emília Cândida da Silva Maia, Joaquim Emílio da Silva Maia, Emílio Joaquim da Silva Maia, Antonio Emílio da Silva Maia e Sebastião Emílio da Silva Maia.
 
Emílio Maia foi um cidadão que contribuiu com a construção do Império e da história do Brasil atuando na criação de sociedades e periódicos científicos. Tornou-se membro titular da Academia de Medicina do Rio de Janeiro. Foi professor catedrático do Imperial Colégio Pedro II, onde atuava como médico também, desde 1838. O Museu Nacional o nomeou em 1842 como primeiro diretor da seção de Anatomia Comparada e Zoologia, além de ter acumulado o cargo de secretário. Também foi sócio fundador, membro da seção de história e secretário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em dezembro de 1838, e integrou como membro fundador a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. Emílio Maia foi membro efetivo e honorário da Imperial Academia de Medicina.

 

 

Quanto à sua experiência como escritor

Entre 1834 e 1840, a Imperial Academia de Medicina editou a Revista Médica Fluminense, da qual Emílio Maia foi redator por quatro anos e publicou várias notas. Essa revista era o único veículo de comunicação da comunidade médica brasileira na época. Também redigiu os Annaes Brasilienses de Medicina, que sucedeu à revista. Foi redator da revista Minerva Brasiliense e colaborador da O Guanabara entre 1849 e 1850, que era uma revista mensal artística, científica e literária da Associação de Literatos. Seus escritos em áreas diversas e suas atuações o revelam como um importante intelectual de seu tempo.

A trajetória de Emílio Maia na redação dessas revistas foi essencial quando ele começou a editoração e publicação dos trabalhos da Sociedade Vellosiana, criada em 1850 e voltada exclusivamente para as ciências naturais, da qual ele foi membro e tesoureiro contribuindo com os estudos sobre a Geografia Zoológica. Seu ensaio datado de 1852 acerca do tema é talvez o de “maior conteúdo em ciências naturais” (Kury, 1998 apud Figueiredo; Absolon & Gallo, 2017).
 
Um breve levantamento de suas produções indica que ele transitava em variadas áreas, totalizando cerca de 28 produções, a começar por sua tese. Essa síntese de sua vida, focada em momentos centrais que as fontes permitem observar, e preocupada em resgatar sua trajetória e experiência familiar, política e profissional, revela a importância de Emílio Maia na história do Brasil e de Portugal desde a Independência brasileira ao Segundo Reinado Imperial.

Referências consultadas

FIGUEIREDO, F; ABSOLON, B. & GALLO, V. Emilio Joaquim da Silva Maia (1808-1859) e o seu ensaio sobre “Geographia Zoológica”. Filosofia e História da Biologia, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 251-274, 2017.
 
GARCIA, Lúcia Maria Cruz. Emílio Joaquim da Silva Maia: um intelectual no império do Brasil. 2004. 106f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.
 
SILVA, Luiz Gustavo Martins. Entre penas e impressos: aspectos da experiência política de exilados liberais na Europa e no Brasil contra o regime de D. Miguel (1826- 1837). 2019, 117f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2019.