Etapas psicológicas do exílio

Neste texto, falarei sobre as etapas psicológicas do exílio e utilizarei como referência o artigo “Mulheres no exílio: a percepção do exílio das mulheres exiladas na França” de Ana Vasquez, socióloga com estudos na área de psicossociologia. O artigo foi publicado em 1982 pela revista Mensaje, fundada e editada no Chile em 1951 pelo jesuíta Padre Hurtado, a qual objetiva informar aos seus leitores uma perspectiva crítica e cristã da realidade nacional e internacional. Mensaje é a minha principal fonte de pesquisa do mestrado e consiste em um importante instrumento para a investigação do exílio chileno, sendo o escrito de Ana Vasquez o mais questionador sobre gênero e exílio de chilenas e chilenos na França. O texto a qual me refiro está presente na seção da revista denominada “sociedade” que contém sete páginas que estão disponíveis no repositório digital do impresso.


Escrevi um pouco mais sobre a Mensaje e citei o texto de Vasquez aqui no blog, acesse aqui.

Definição de exílio

Segundo Ana Vasquez, o exílio chileno consiste em um ato de expulsão do país de origem e a proibição de retorno. A estudiosa acrescenta que este tipo de punição tem um caráter político e que 10% da população chilena encontrava-se exilada, questão que permite salientar o quanto a prática compunha o contexto político do Chile durante o ano da publicação de seu escrito (1982). Vale lembrar que o país se encontrava em meio à uma ditadura militar desferida e comandada pelo general Augusto Pinochet, e que o governo do presidente Salvador Allende sofreu um golpe de estado, gerando uma implacável perseguição a ele e seus partidários. A comunidade chilena exilada era composta por professores universitários, ex-funcionários do governo, sindicalistas e campesinos, que nos países receptores, entre eles, França, Finlândia, Canadá e Moçambique, lidavam com a desqualificação profissional e a perda de poder social. Ana Vasquez caracteriza o exílio chileno como “um exílio de militantes como em todo o Cone Sul”. Aqui a expressão Cone Sul refere-se aos países da América do Sul, que vivenciaram ditaduras militares e civis enquanto realidades como Chile, Argentina, Brasil, entre outros.

Primeira etapa psicológica do exílio

É interessante destacar que no início de seu texto a autora chama a atenção para a importância de não se reduzir uma investigação psicológica do exílio de chilenas e chilenos a uma análise dos problemas políticos e sociais presentes no Chile e na França à época. Afinal, os processos psicológicos não são homogêneos e os indivíduos possuem particularidades complexas que se manifestam para além do coletivo que se encontra exilado. Dessa forma, Ana Vasquez defende que na primeira etapa do exílio, as semelhanças entre experiências de mulheres e homens possuem certa uniformidade devido ao processo de transculturação em que a comunidade exilada é submetida de imediato. Nele, ocorre a incorporação dos costumes do país receptor, no caso, a França. A transculturação é difícil e, muitas vezes, dolorosa porque demanda um confronto com as culturas dos dois países em questão.

A primeira etapa psicológica do exílio é marcada pela sensação de perda, instabilidade emocional e financeira, a promessa de retorno ao país de origem e a dificuldade de se pensar em projetos a longo prazo. Nessa fase, existe um fortalecimento dos laços de solidariedade entre a comunidade exilada e a idealização do Chile e suas especificidades. Momento em que também acontece certa recusa à assimilação dos costumes franceses e dificuldades de adaptação à nova realidade. Dessa forma, a primeira etapa do exílio chileno foi crucial na vida dos perseguidos da ditadura de Pinochet, visto que ela moldou o processo de integração à sociedade de acolhimento de cada exilada e exilado e de todos em coletivo.

O exílio feminino

De acordo com Ana Vasquez, à medida que a transculturação se desenvolve, o exílio de mulheres adquire formas específicas. A perda da família, por exemplo, assume um peso maior para o gênero feminino, pois o ideal de família latino-americana, outorga à ele a responsabilidade de cuidado com o lar e seus entes queridos. O exílio, marcado por instabilidade emocional e financeira, corrobora para que este ideal de família seja transformado por causa da nova realidade imposta à comunidade exilada. Muitas mulheres que, no Chile, se dedicavam às tarefas domésticas e a criação dos filhos enquanto o companheiro trabalhava fora de casa, buscaram inserção no mercado de trabalho para sobreviver no exterior.

Houve casos de mulheres que chegaram à França solteiras e que ao sair para trabalhar e estudar tiveram contato com múltiplas ideias. Já aquelas que não tinham qualificação profissional exerceram trabalhos em restaurantes e outros locais nos quais a renda mensal era baixíssima. Outras continuaram com os estudos. É digno de nota que muitas sujeitas não profissionais se empenharam em estudar sobre novos assuntos. Em algumas circunstâncias, mulheres casadas exerceram tarefas econômicas e receberam salários iguais ou maiores que os dos homens. Portanto, os exemplos citados evidenciam como as experiências dessas exiladas foram diversas e que é impossível colocá-las dentro de um grupo unilateral.

Os papéis de gênero nas etapas do exílio

Por mais que as condições de vida no exílio fossem constantemente alteradas, a divisão dos papéis de gênero permaneceram semelhantes às que vigoravam no Chile. Muitas exiladas encararam a dupla jornada de trabalho. As militantes conciliaram tarefas partidárias, trabalho fora de casa e responsabilidades domésticas. Situações que podem ter passado despercebidas aos olhos dessas mulheres, na primeira etapa do exílio, pois, os assuntos valorizados pelo coletivo exilado envolviam o Chile, a repressão e a resistência à ditadura militar. Por esses motivos, a divisão dos papéis de gênero tornou-se preponderante nas etapas do fenômeno no estrangeiro, principalmente na França.

Outras etapas psicológicas do exílio

As novas responsabilidades adquiridas pelas exiladas e pelos exilados promoveram suas autonomias. O conhecimento de novas teorias e o contato com as mulheres francesas e de outros países latino-americanos contribuíram para a consolidação de encontros e trocas de vivências femininas. De acordo com o texto de Vasquez (1982), inicialmente, as mulheres foram forçadas a perceber as mudanças na prática cotidiana. Posteriormente, refletiram sobre elas e tomaram consciência individual e coletiva.

O ato de sociabilização entre mulheres no exílio não é uma temática nova que escrevo aqui no blog. Para saber mais sobre o tema indico os seguintes textos:

As discussões realizadas entre mulheres eram consideradas por muitos como clandestinas e colocadas na subcategoria de “tema de conversação feminina”, aliás é uma característica dos vários exílios, nos quais os exilados e exiladas atuam clandestinamente, inclusive para não serem perseguidos no país de asilo. A tomada de consciência das exiladas chilenas contribuiu para o aparecimento de conflitos interpessoais com os seus companheiros, colegas de partidos e até mesmo com outras mulheres que classificaram suas reflexões como “afrancesamento” e “aburguesamento”. Os conflitos também poderiam envolver a si mesma, pois ambas estavam rompendo com um modelo de mulher latino-americana historicamente construído e reproduzido nos espaços que ocupavam. Vasquez disse que poucas exiladas chilenas falavam em público, um sintoma da estrutura patriarcal existente na sociedade como um todo e mantida no exílio.

Conclusão

Observa-se que o texto “Mulheres no exílio: a percepção do exílio das mulheres exiladas na França”, de autoria de Ana Vasquez, aborda que as experiências psicológicas, políticas e sociais do exílio chileno são distintas para os gêneros, principalmente após maior desenvolvimento do processo de transculturação no estrangeiro. Além disso, evidencia como a reflexão coletiva provoca mudanças no comportamento individual de exiladas chilenas. Muitas delas entenderam que a construção de um certo modelo de feminilidade é algo aprendido desde o início da vida e que a desconstrução desse modelo é conflituosa com as ideologias sustentadas pela comunidade exilada. Constatação que as permitiram se entender enquanto atuantes de um processo histórico que está para além das conjunturas políticas e sociais de Chile e França.

Referência consultada

VASQUEZ, Ana. Mulheres no exílio: a percepção do exílio das mulheres exiladas na França, publicado pela revista Mensaje em 1982.