A exilada brasileira, Danda Prado

Hoje vou falar sobre Yolanda Cerquinho Prado, conhecida como Danda Prado, exilada brasileira durante a ditadura militar, que aconteceu de 1964 a 1985, e um dos grandes nomes dos feminismos no exílio. Danda fundou o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris em 1972, o primeiro grupo feminista latino-americano do exílio. Já escrevi um texto para o blog sobre a organização e o recomendo para quem se interessar pelo tema.

Ninguém nasce mulher, torna-se mulher

 Simone de Beauvoir

A trajetória da exilada é marcada por uma luta que questionou estereótipos de gênero, estabelecidos pelo social e pela biologia, rompendo com binarismos como homem-mulher e público-privado. Além disso, pensou em existências de corpos e sexualidades para além da ordem construída a partir da heterossexualidade compulsória. 

O grupo citado no parágrafo anterior foi importante ferramenta para a discussão dessas questões e a reformulação da identidade de sua fundadora. No exílio, ela se aproximou do feminismo lésbico e se entendeu como mulher lésbica, questão que se relaciona com a forma como o boletim Nosotras, organizado pelo Grupo Latino-americano de Mulheres em Paris, desconstruiu a mitologia heterossexual.

Danda Prado também corroborou para a disseminação de teorias feministas no Brasil e na América Latina através da participação em congressos, seminários, reuniões de partidos políticos, coletivos de formação de consciência, entrevistas e publicação de livros. Após a Lei da Anistia de 1979, retornou ao Brasil e atuou no “Coletivo de Mulheres” no Rio de Janeiro e na edição do boletim “O sexo finalmente explícito” e da Revista “Impressões”.

Em 1981, publicou “Cícera, um destino de mulher: autobiografia duma imigrante nordestina, operária têxtil”, escrito em conjunto com Cícera, uma operária que entrou na justiça para garantir que a filha, abusada sexualmente pelo padrasto, pudesse realizar o aborto assegurado pela lei, mas impedido por médicos que se negavam a realizar o procedimento. No mesmo ano também publicou a obra “O que é família”, onde estudou a constituição do núcleo familiar ao longo da história.

Já no livro “O que é aborto”, publicado em 1984, defendeu a descriminalização da prática e argumentou que um dos objetivos do movimento feminista consistia em modificar as estruturas econômicas e sociais da sociedade, e ambas as pautas estavam relacionadas e eram por ela destacadas em diversos espaços.

Danda participou da coordenação da Coleção Primeiros Passos e da Coleção Aletheia da Editora Brasiliense. Ao ser entrevistada por Susel de Oliveira, autora do livro Mulheres, ditaduras e memórias: não imagine que precise ser triste para ser militante, disse estar empolgada com a publicação do livro “O que é transexualidade” de Berenice Bento, presente na primeira coleção aqui destacada. Fato que reforça o seu interesse por temáticas sobre o corpo e a sexualidade.

Fonte: divulgação

Quando integrava a Associação de Mulheres do Partido Comunista, coordenada por sua madrasta, a autora, ainda adolescente já se interessava por discutir esses assuntos. Um pouco antes de se casar, aos 20 anos de idade, leu “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir e entendeu o sexo como construção social:

 Eu fiquei muito entusiasmada quando eu li o livro (…) foi um dos primeiros livros que vieram em francês (…) e foi uma mudança muito grande para mim, de vida, de objetivo, de tudo … e eu escrevi para Beauvoir, aqui do Brasil.

Danda Prado em entrevista para a obra Mulheres, ditaduras e memórias: não imagine que precise ser triste para ser militante, p.128.

Ela ficou muito satisfeita quando Simone de Beauvoir e seu companheiro Jean-Paul Sartre visitaram o Brasil em 1960 e foram jantar em sua casa. Danda aproveitou o prestígio de seu pai, o intelectual Caio Prado Júnior, para realizar o convite. Sobre a leitura de “O segundo sexo” também disse que: 

(…) provavelmente eu não entendi tudo o que eu estava lendo, mas foi o suficiente para me acordar numa certa direção. A minha mãe tinha mania de se queixar de que as pessoas não davam atenção a ela porque era mulher (…) que não sei quem tentou enganá-la porque era mulher.

Danda Prado em entrevista para a obra Mulheres (…).

“O segundo sexo” foi apenas uma das obras internacionais lidas pela exilada. O contato com a Editora Brasiliense proporcionou espaço para que ela tivesse contato com teorias feministas e socialistas. Danda cresceu em uma família da elite paulista, teve acesso à educação de qualidade e atuou em espaços de grande circulação de ideias e formação de redes intelectuais. 

Quando a ditadura militar brasileira se iniciou, já era formada em psicologia e fazia parte do Partido Comunista. Como mulher e militante, se incomodava com o fato de muitos componentes do partido atribuírem ao gênero uma pauta secundária enquanto a Revolução Socialista era concebida como o objetivo central das esquerdas. 

Por confrontar o discurso masculino sobre o processo revolucionário, se afastou das reuniões com os seus filiados e se separou do marido, também membro da organização política e com quem estava casada há 15 anos. Apesar de afastada da instituição, continuou atuando na busca por presos políticos, além da ajuda prestada aos militantes que precisavam partir para o exílio.

 “A gente tinha que fazer alguma coisa: o tempo todo, a gente ouvia alguém que vinha contar absurdos (prisões, torturas, desaparecimento), tinha a indignação … não era possível ficar vivendo assim.”

Danda Prado em entrevista para a obra Mulheres, ditaduras e memórias: não imagine que precise ser triste para ser militante, p.130.

Por ser filha de um intelectual e militante de esquerda, Danda estava acostumada a ser conhecida como “filha de comunista”. Sua militância e as visitas que realizava ao pai, preso e acusado de defender a luta armada em um jornal de estudantes da Unicamp, fez com que membros de sua família rompessem vínculos com ela. O Ato Institucional-5, de 1968, que fortaleceu a repressão contra os sujeitos considerados inimigos do Estado, fez com que Danda partisse para o exílio na França em 1969 e retornasse para o Brasil no ano seguinte para acompanhar o julgamento de Caio Prado Júnior. Ela voltou para o exílio depois de episódios de perseguição que envolveram familiares e amigos.

Assim como grande parte da comunidade exilada, viveu a promessa do retorno, sonhou em retornar ao Brasil, mesmo que clandestinamente, para participar da Guerrilha do Araguaia. Nesse período, tinha contato com militantes simpáticos à luta armada que enxergavam no Araguaia um grande símbolo da revolução. Este não foi o primeiro exílio de Danda, pois ainda criança viu o seu pai ser perseguido por Getúlio Vargas devido à sua militância no Partido Comunista e relação com a ANL (Aliança Nacional Libertadora) durante o Estado Novo (1930-1937). 

Já a sua segunda experiência no exílio, envolveu aspectos pessoais como maternidade, profissão, sexualidade e identidade, ambos afetados pelos feminismos de segunda onda que se materializaram no desterro. Como já enfatizado, o Grupo Latino-americano de Mulheres em Paris foi o primeiro grupo feminista latino-americano surgido no exílio. As suas reuniões iniciais ocorreram no apartamento de Danda e explicitaram o desconforto de muitas mulheres, no que diz respeito à maneira como a militância excluía sujeitos que não performavam certo tipo de masculinidade. O coletivo foi essencial para a formação de uma consciência feminista e o entendimento da solidão do exílio como multiplicadora de afetos e autoconhecimento.

Grupo Latino-americano de Mulheres em Paris questionou a ordem patriarcal existente nas instituições de esquerda e corroborou para que o FRONT (Frente dos Brasileiros no Exílio), organização que concedia auxílio aos exilados, ameaçasse romper com a ajuda para com famílias cujas mulheres participassem do grupo, visto que, o mesmo, fazia com que essas mulheres se rebelassem contra os homens. Muitas brasileiras deixaram o coletivo após as ameaças, pois não ter apoio do órgão implicava em enfrentar dificuldades de inserção no mercado de trabalho, de resolução de pendências burocráticas e de conseguir escolas para os filhos. A proibição ocorreu formalmente em 1975, mas segundo uma carta de Danda para a sua amiga Lila, o desconforto já se manifestava anos antes, em 1972. 

Para saber mais sobre a trajetória de Danda Prado e sua relação com os feminismos, principalmente os de exílio, indico a segunda parte do livro “Mulheres, ditaduras e memórias: não imagine que precise ser triste para ser militante”, com o título “Danda Prado e a coragem feminista”. A sua atuação no desterro se cruzou com a de outras exiladas que questionaram papéis de gênero existentes no exílio e nos partidos de esquerda e fortaleceram os feminismos de diversos países da América Latina. A trajetória da psicóloga, militante e feminista consiste em uma das formas de se entender um pouco sobre a constituição dos feminismos nos exílios e sua contribuição para a teoria feminista brasileira e latino-americana.

Referências consultadas

Rosa, Susel Oliveira da. Mulheres, ditaduras e memórias: não imagine que precise ser triste para ser militante. Segunda Parte – Danda Prado e a coragem feminista. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2013, pp.105-233.