Exílio chileno no feminino e desconstrução do sujeito universal masculino

Geralmente, a experiência do exílio é contada do ponto de vista de um sujeito masculino. Histórias como a de Ulisses em Odisseia, por exemplo, atribuem sabedoria e poder ao indivíduo desterrado que, guiado pela promessa do retorno, realiza grandiosa trajetória de volta ao país de origem. Mas seria essa uma regra?

Experiências não universais

Este texto, objetiva salientar que as experiências do exílio são vivenciadas de maneiras distintas entre mulheres e homens e não devem ser universalizadas. Eu utilizo como base para discussão o exílio chileno feminino durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Nessa época, 10% da população chilena encontrava-se no desterro; sendo 41% composta por mulheres – dado ainda pouco explorado pela historiografia latino-americana. Ressalto, no entanto, que principalmente nas etapas iniciais do desterro, homens e mulheres enfrentaram situações psicológicas e socioeconômicas semelhantes: a promessa do retorno, a solidariedade entre a comunidade exilada, a desqualificação profissional e a dificuldade com a incorporação dos costumes do país receptor, sendo na França o maior exemplo. Aqui, estou falando do exílio político, no qual a exclusão faz parte do “jogo” imposto pelas forças que ocupavam o poder. Foram excluídos professores e professoras, intelectuais, sindicalistas e demais grupos considerados inimigos do Estado.

Quais foram as dificuldades de gênero vivenciadas pelas exiladas?

Para uma reflexão sobre essa pergunta, é necessário ter em mente que a Igreja Católica era talvez a única instituição do período capaz de “bater de frente” com a ordem militar e que nem todos os seus membros apoiaram o golpe de 1973. A sociedade chilena, no geral, reproduzia os valores disseminados pela moral católica; sendo, o valor de “família tradicional” um dos mais utilizados tanto pelos que apoiavam a ditadura quanto pelos contrários a ela. Como, então, isso se refletiu no exílio? 

Dados mostram* que o número de mulheres que chegaram à França na companhia de familiares foi superior ao de homens (61% e 38%). Além disso, a quantidade de mulheres “solas” foi inferior à de homens (20% e 45%). As porcentagens expostas, somadas à historiografia sobre o desterro chileno, revelam que a experiência do exílio é vivenciada de forma diferente pelos gêneros. Relatos de exiladas e exilados explicitam que o modelo tradicional de família sustentado pela moral católica recaiu com maior força sobre as mulheres, impactando diretamente em suas condições psicológicas e socioeconômicas.

Muitas exiladas tiveram que trabalhar fora para sustentar a si e seus familiares; em alguns casos tiveram que lidar com uma dupla jornada de trabalho. Sem contar, a militância nos partidos e o fato de que seus próprios companheiros as reconheciam como agentes secundários na esfera política – mais um elemento de diferenciação. Dentro das organizações de esquerda, para essas mulheres eram destinadas tarefas domésticas, assim como nos lares. Àquelas que reconheceram-se como feministas ouviram que suas pautas não eram relevantes e que todos os problemas de igualdade seriam resolvidos com a Revolução Socialista. 

Feminismo no exílio

Por falar em feminismo, você sabia que muitas sujeitas se entenderam como feministas no exílio? A francesa Simone de Beauvoir era um dos nomes mais badalados entre a elite intelectual da época. 

Sua obra “O segundo sexo”, publicada em 1949, ganhou espaço em círculos de debates e seminários. O contato com os escritos da feminista Beauvoir (e tantas outras), possibilitou às chilenas exiladas o entendimento das opressões de gênero que as cercavam nos âmbitos público e privadoGrupos surgiram com a finalidade de pensar as realidades de mulheres diversas e se articular com as feministas que lutavam por democracia na América Latina, ainda que se identificaram com os escritos de Beauvoir; se reconheceram como mulheres latino-americanas, cujas experiências se entrelaçavam ao autoritarismo vigente no subcontinente e aos ideais conservadores assimilados pela sociedade da época. Exiladas também participaram da produção de artigos, periódicos e documentários sobre o desterro feminino, mas isso é assunto para outro texto!

Referências consultadas

O artigo para a construção deste texto foi Mulheres latino-americanas no exílio. Universalidade e especificidade de suas experiências de Ana Vasquez e Ângela Brito, publicado em 2007. Acesse-o em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/esbocos/article/view/1208

* GARCÍA, Marcela. Itinerarios militantes, profesionales y familiares de exiliadas chilenas em Francia: un análisis en términos de relaciones sociales. La Plata, 26, 27 e 28 de setembro de 2012.Acesse-o em:http://jornadasexilios.fahce.unlp.edu.ar.