Exílios latino-americanos: breve história

Hoje vou falar um pouco sobre a história dos exílios latino-americanos porque percebi a necessidade de contextualizar esse fenômeno que é presente em alguns textos deste blog e nas pesquisas que desenvolvo nos últimos anos. Os dois capítulos iniciais do livro Caminhos Cruzados: História e Memória dos Exílios Latino-Americanos no século XX, organizado pela historiadora Samantha Viz Quadrat, fazem parte das referências bibliográficas que utilizei neste texto. Mas, confesso, que a literatura sobre esse tema é ampla e possui complexidade.

Exílios na América Latina

Todos os países da América Latina – apesar de trajetórias institucionais diferentes – incorporaram o exílio como uma prática política importante. 

                                                                  Luis Roniger

Os exílios e desterros ou quaisquer outras formas de deslocamento forçado constituem-se uma prática muito antiga da humanidade. Porém, com a formação dos Estados-Nação no século XIX, o conceito de exílio sofreu uma maior teorização por parte de diversos estudiosos, seja no campo da história, seja na linguística, na geografia etc. 

Na América Latina, com os processos de independência ocorridos no início do século XIX, por volta de 1810 e adiante, o fenômeno do exílio adquiriu um maior significado político. Visto que, as novas ideias de nação, nacionalidade e direitos do cidadão permitiram que as experiências de deslocamento fossem pensadas a partir de diversos contextos políticos.

Esse sentido político atribuído ao exílio continuou no século seguinte, contudo, na sua forma mais violenta. As ditaduras militares a partir dos anos de 1960 que ocorreram nos países latinos trouxeram essa natureza de violência de forma mais nítida. Em vários países, muitas pessoas não só foram forçadas ao exílio; muitas delas, perderam direitos civis e políticos.

Características das comunidades exiladas

As múltiplas formas de desterro que ocorreram na América Latina têm relação direta com os governos autoritários que usaram o exílio e o degredo como instrumento de punição. Um ato de declarar quem era o outro, o inimigo da pátria. Personagens públicas que ocupavam um lugar de destaque nas sociedades latino-americanas foram exiladas: entre elas, grandes nomes como Simón BolívarJosé Martí, Juan Domingo Perón e Fidel Castro – 5 curiosidade sobre Fidel.

Há algumas diferenças em matéria de exílio político. Se, por um lado, os exílios latino-americanos do século XIX foram marcados por certo protagonismo das elites, porque estar/ser exilado significava, na maioria das vezes, usufruir de status público e ocupar posição de destaque na esfera política. Por outro lado, as ditaduras militares da segunda metade do século XX, abrangeram uma ampla comunidade exilada, o que possibilitou que a historiografia estudasse novas interpretações sobre os exílios da América Latina.

Ditaduras militares: exílios latino-americanos

Foi então que se notou o caráter generalizado e recorrente do fenômeno como um mecanismo de exclusão institucionalizada na história da América Latina.                                                                                                                                                Luis Roniger


As ditaduras militares utilizaram o exílio como forma de tortura para com os seus adversários políticos. Se posicionar contra os governos autoritários implicava em ser considerado um inimigo da nação, ser chamado de terrorista e criminoso. Nesse contexto, foram exilados indivíduos de raça, gênero e classe social distintas. 

Os desterros abrangeram diferentes grupos que saíram de seus países de origem por vias legais ou clandestinas. Os exílios das ditaduras militares foram amparados legalmente pela doutrina de segurança nacional que perseguiu seus inimigos políticos, ou seja, foram legalizados pelos próprios Estados. 

Muitos exilados latino-americanos contaram com o asilo e acolhimento de países da Europa e da África e tiveram que se adaptar à novas culturas, estabelecendo redes de sociabilidade e solidariedade entre a comunidade exilada.

Múltiplos exílios latino-americanos

Por mais que os exílios do século XX tenham assumido um caráter massivo, é necessário avaliar as trajetórias de grupos e sujeitos exilados isoladamente, pois a coletividade não reflete o todo. Sempre existirão histórias e narrativas que “fogem” de fontes, documentos e biografias porque o fenômeno do desterro envolveu subjetividades que perpassam cada uma das pessoas que vivenciaram a experiência.

Coletâneas como A pátria interrompida: latino-americanos no exílio. Séculos XVIII-XX, A política do desterro e o exílio na América Latina e Caminhos Cruzados: História e Memória dos exílios latino-americanos no século XX são importantes obras para se pensar a heterogeneidade dos desterros latino-americanos ao longo dos tempos. Porém, ainda assim, existem muitas lacunas a serem investigadas sobre o exílio enquanto campo de conhecimento.

As fontes quantitativas analisadas pelo pesquisador Pablo Yankelevich indicam que cerca de metade da comunidade exilada era composta por mulheres e um quarto por crianças que se deslocaram junto com os seus familiares.

Uma avaliação desses dados e a ampliação das narrativas que contemplam esses grupos, ainda pouco abordados, é de grande ganho para a escrita da história sobre o exílio latino-americano e estudos de gênero e da infância, pois possibilitará análises por um eixo transversal e preencherá elementos ausentes nessa história.

Considerações finais

A história dos exílios que abordei neste artigo indicam que, finalmente, as memórias do exílio são de grande contribuição para estudo da História da América Latina porque estudar o fenômeno também é entender práticas de migração antigas que persistem no território latino-americano e entender como essas ações se relacionam com crises políticas, econômicas e socioambientais.

Investigar as constituições dos exílios e seus múltiplos desdobramentos e contextos é também estudar a História da América Latina a partir de perspectivas transnacionais que englobam indivíduos de realidades distintas, contribuindo para a ampliação de vozes e interpretações dentro do campo historiográfico.

Referências consultadas

YANKELEVICH, Pablo. Estudar o exílio. In: QUADRAT, Samantha (org.). Caminhos Cruzados: História e Memória dos Exílios Latino-Americanos no século XX. Rio de Janeiro. Editora FGV, 2011. pp. 11-30.

RONIGER, Luis. Reflexões sobre o exílio como tema de investigação: avanços teóricos e desafios. In: QUADRAT, Samantha (org.). Caminhos Cruzados: História e Memória dos Exílios Latino-Americanos no século XX. Rio de Janeiro. Editora FGV, 2011. pp. 31-61.