Feminismo e exílio em Mensaje

Hoje falarei sobre as relações entre feminismo e exílio utilizando minha fonte de pesquisa do mestrado, a revista católica Mensaje.

                                                                                          Iasmin Gomes

Mensaje foi fundada em 1951 pelo jesuíta Padre Hurtado, e propõe abordar a realidade chilena e internacional a partir de uma perspectiva crítica e cristã. O impresso circula no Chile até os dias atuais, e ao longo de sua história, apoiou a ideologia socialista influenciada pela Democracia Cristã e a Teologia da Libertação. Tais  teorias aproximaram o catolicismo e setores progressistas das sociedades latino-americanas do século XX. 

Como a revista permanece ativa, é possível analisá-la desde de sua última edição mais recente. Entretanto, neste artigo, utilizarei o recorte temporal de 1982 a 1990, período que abrange a consolidação de movimentos feministas na América Latina, a “abertura” da ditadura para a redemocratização e o fim do governo autoritário.

Feminismo e Igreja Católica

Entre 1982 e 1990, a Mensaje foi publicada de maneira mensal e bimestral e contou com seções sobre cinema, teatro, literatura e sociedade. Ao que tudo indica, não foi fechada pela censura durante o período de repressão. Porém, a sua edição de setembro de 1973 sofreu atraso devido à conjuntura do golpe contra o presidente Salvador Allende. Esse fato nos permite questionar sobre o poder político e socioeconômico ocupado por seus diretores, editores e todo o seu corpo editorial que era altamente formado por membros da Igreja Católica, talvez a única instituição com “comando” suficiente para enfrentar a estrutura militar.

É impossível escrever sobre o tema que propus sem contextualizar minimamente as relações entre  feminismo e catolicismo na ditadura militar. Em 1975, foi fundada a Academia de Humanismo Cristão, que tinha como objetivo subsidiar estudos acadêmicos relacionados às ciências sociais censurados pelos militares. Já em 1979, esse órgão financiou a criação do Círculo de Estudos da Mulher, organização que buscou implantar um programa de docência feminista; sendo a socióloga e socialista, Julieta Kirkwood sua principal liderança intelectual. Dessa forma, duas instituições distintas – Movimento Feminista e Igreja Católica – atuaram em conjunto contra o governo de Augusto Pinochet (que durou no poder de 17 de dezembro de 1974 – 11 de março de 1990).

Feminismo em Mensaje

As transformações propostas pelo Círculo de Estudos da Mulher se materializaram em Mensaje. O impresso contou com um corpo editorial composto por mulheres feministas, militantes e intelectuais que tinham como finalidade contribuir para a escrita da História das Mulheres no Chile. Estas sujeitas buscaram citar obras, nomear autoras e analisar a conjuntura chilena, entendendo que feminismo e política não eram categorias distintas, muito pelo contrário, estavam conectadas e inseridas nas relações pessoais que também carregavam concepções e hierarquias de poder. 

As discussões presentes na revista acompanharam os acontecimentos históricos do Chile e de outros países, não ficando restritas apenas aos fatos do continente americano. Nos anos de 1982 a 1986, ocorreu uma forte mobilização dos movimentos feministas latino-americanos contra as ditaduras militares em vigor na América do Sul. Por isso, grupos de formação de consciência, encontros nacionais e internacionais, boletins e outras maneiras de resistência foram construídas em prol da luta feminista e política, assim como foram defendidas pelas editoras feministas da Mensaje

Feminismo e exílios

Assim, as intersecções entre feminismos e exílios se fizeram cada vez mais nítidas, visto que, muitas exiladas atuaram na linha de frente contra as ditaduras, arrecadando dinheiro para enviar ao país de origem, denunciando ao mundo os autoritarismos e participando ativamente de organizações de mulheres. Não é por acaso que, a partir do início da década de 1980, o feminismo tornou-se um assunto característico dos exemplares de Mensaje, o processo de abertura democrática somado às lutas feminista e política foi essencial para o ocorrido. 

Para saber mais sobre o exílio chileno a partir de perspectiva de gênero, recomendo uma visita no artigo escrito por mim, neste blog!

Exiladas chilenas e feminismo

Ana Vasquez

O escrito de Vasquez (1982) e de outras autoras presentes em Mensaje são essenciais para o entendimento das conexões entre feminismo e exílio.

As exiladas de maior destaque na fonte analisada receberam asilo em Paris, local onde grande parte da intelectualidade latino-americana estava exilada, o que diz muito sobre o status que ocupavam nas sociedades chilena e francesa. Estudos revelam um percentual importante a respeito do gênero no desterro. Segundo García (2012), cerca de 41% da comunidade chilena exilada na França era composta por mulheres. Um dado expressivo e que deve ser levado em consideração na investigação sobre os impactos de gênero nos exílios chilenos.

O texto de autoria da exilada Ana Vasquez Mulheres no exílio: a percepção do exílio nas mulheres exiladas na França, publicado por Mensaje em 1982, é o mais questionador sobre o desterro feminino encontrado no impresso, e está presente na seção denominada “sociedade”, contendo sete páginas. Na primeira parte, a autora – exilada chilena na França e socióloga com estudos na área de psicossociologia – escreveu sobre o marco teórico que engloba o exílio e suas características gerais que, a priori, são similares a ambos os gêneros. Já na segunda, atentou-se às questões específicas de gênero dentro da complexa estrutura que envolveu exiladas e exilados – partidos políticos, família, trabalho, sociabilização, etc. 

O escrito de Vasquez (1982) e de outras autoras presentes em Mensaje são essenciais para o entendimento das conexões entre feminismo e exílio. Josefina Rossetti – mulher da imagem no início deste texto – a socióloga chilena de maior atuação na revista, teve cinco textos publicados nas seções intituladas “sociedade” e “fatos e comentários”.

Ela foi exilada na França e escreveu textos sobre as ações do movimento feminista chileno, entre eles, A Concertação Nacional de Mulheres pela Democracia de 1989. O título faz menção à organização, cujo objetivo era lutar pela participação de mulheres no processo de abertura democrática e contou com o apoio de María Elena Carrera, presidenta das mulheres da Unidade Popular em 1971 e presidenta do grupo Mulheres Chilenas no exílio, com sede em 35 países. 

Considerações finais

As relações entre feminismo e exílio materializadas em Mensaje vão muito além das edições publicadas pelo impresso, desde 1951 e, principalmente, nas décadas seguintes. Elas dizem muito sobre o contexto chileno e internacional e as redes de sociabilidade criadas pelas próprias exiladas nos países receptores, como foi o caso da França. 

Além disso, evidenciam como as conexões entre feminismo, exílio e catolicismo devem ser mais analisadas pela historiografia, visto que, consistem em um campo fecundo do conhecimento e apresentam complexidades importantes para se pensar a história das ditaduras militares na América Latina.

Referências consultadas

GARCÍA, Marcela. Itinerarios militantes, profesionales y familiares de exiliadas chilenas em Francia: un análisis en términos de relaciones sociales. La Plata, 26, 27 e 28 de setembro de 2012. Disponível em http://jornadasexilios.fahce.unlp.edu.ar.

MARQUES, Gabriela. As feministas na Igreja Católica: uma análise do Circulo de Estudios de la Mujer na Academia de Humanismo Cristiano do Chile (1979-1983). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, 2011, pp.1-15. Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300857132_ARQUIVO_GabrielaMirandaMarquesST56.pdf

FONTES: Exemplares da revista Mensaje publicados de 1980 a 1990.