Highlights da trajetória do exilado Silva Maia

Highlights são muito utilizados nas redes sociais hoje em dia. Entretanto, não é somente nas redes em que se faz a prática de destaques; os exemplos podem ser diversos, como realçar uma leitura, um livro etc. Highlights são tanto uma expressão da língua inglesa que têm vários significados, assim como é um recurso que permite destacar histórias, em seu perfil do Instagram, no WhatsApp etc.

Um aplicativo que utilizo para estudar inglês chamado “Inglês” mostra o substantivo do termo que significa, por exemplo, “um detalhe, evento, período ou tempo especialmente significativo ou interessante”. Na imagem à esquerda, apliquei um highlights no exemplo 2, na cor vermelha. Já na imagem à direita, destaquei a tradução da palavra (translations), que para o português é “realçar, enfatizar, destacar, ressaltar”.

Com base em tudo isso, a minha proposta é apresentar alguns Highlights da trajetória política Joaquim José da Silva Maia, personagem que venho trabalhando nas minhas pesquisas. Então, vou trazer à discussão neste texto alguns aspectos da vida de Silva Maia, realçando e enfatizando sua atuação no Brasil e na Europa entre 1796 e 1830.

Highlight (1): Silva Maia, províncias e independência do Brasil

Joaquim José da Silva Maia foi um português, nascido em 1776 na cidade do Porto, em Portugal, e brasileiro adotivo pela Constituição do Império do Brasil de 1824. Viveu 55 anos e, ao longo de sua vida, atuou como negociante, jornalista, escritor e possivelmente consultor em matéria de seguros e comércio marítimos. Porém, é preciso ressaltar que ele viveu na condição de exilado político, que se iniciou em Portugal e se estendeu por alguns países na Europa e no Brasil.

Silva Maia emigrou de Portugal para a América Portuguesa em 1796. Foi viver na região do Recôncavo baiano, em Vila de Cachoeira, onde adquiriu experiência no comércio internacional, afinal, morou próximo do complexo mercantil na capitania. Passou a ser reconhecido como negociante, pois também se matriculou na Junta de Comércio. E para atuar nesse ramo, Silva Maia era proprietário de embarcações por nomes bergantim Nelson e sumaca Voador.

Para saber sobre as rotas das embarcações de Silva Maia, sugiro uma pesquisa no periódico O Idade d’Ouro do Brasil, que circulou na Bahia entre 1811 e 1822. Estudos destacam que esse jornal dedicou atenção especial ao tema do comércio e dos melhoramentos na capitania baiana e tratou de outros temas variados. A pesquisadora Maria Beatriz Nizza da Silva, como referência, já pesquisou esse impresso e outros.

Outro ponto a realçar é que o personagem envolveu-se com o tráfico de pessoas. No jornal citado acima, é possível recuperar trechos em matéria de comércio de escravizados relacionados com Silva Maia. Também há importantes estudos científicos a respeito desse envolvimento do negociante, como por exemplo, a dissertação de Walquiria de Rezende Tofanelli Alves e o artigo de Isabel Lustosa.

Silva Maia ao se mudar de Vila de Cachoeira para Salvador integrou-se o grupo de negociantes portugueses, conhecido como praístas, radicados no bairro da Praia. Esse grupo foi importante durante o processo de independência do Brasil de Portugal, pois fez oposição a esse projeto autonomista. Dessa forma, Silva Maia também foi contrário a independência, e defendia as Cortes de Lisboa, a Revolução Liberal de 1820 e a futura Constituição Portuguesa de 1822.

 As ideias e os projetos defendidos por Silva Maia foram expressados no periódico Semanário Cívico que ele escrevia, entre os anos de 1821 e 1823. Nesse jornal, ele pensava ainda melhoramentos para a capitania da Bahia, que se passava pelo ideal de progresso e desenvolvimento; as ideias do Iluminismo e liberais. O Semanário foi uma importante mídia em que o comerciante, jornalista e Procurador do Senado da Câmara de Salvador, deferia críticas a Regência de D. João VI e ao Príncipe D. Pedro I, além de ter se posicionado ao lado do grupo de negociantes portugueses, inclusive junto com o general Inácio Luís Madeira de Melo, contra a independência.

Jornais de Silva Maia

Highlight (2): Revolução, contrarrevolução e exílio político

Sobre o tema das revoluções e contrarrevoluções no sul da Europa no início do século XIX, recomendo a leitura do artigo que publiquei no mês de setembro – Exílio, exilados liberais e o contexto sul da Europa. Após a independência na Bahia, Silva Maia seguiu para a província do Maranhão e de lá viajou para sua cidade de origem, Porto, chegando em Portugal no ano de 1824.

Desse ano até 1828, sua atuação continuou a ser na imprensa, momento em que publicava o jornal Imparcial. Por meio desse impresso, defendia o governo de D. Maria da Glória, as ideias liberais e constitucionalistas e noticiava sobre acontecimentos estrangeiros, inclusive ocorridos nas províncias do Brasil. Um destaque importante também é o fato de Silva Maia ter defendido a Constituição de 1824 do Brasil, que foi outorgada, sob adaptações, por D. Pedro em Portugal, assim como a monarquia constitucional do Brasil recrudescendo sua defesa no governo do Primeiro Imperador

O exílio e migração de milhares de constitucionalistas e liberais de diferentes nacionalidades e, em muitos casos, as pessoas se re-exilaram, decorreu das intervenções contrarrevolucionárias. Estudos apontam a emergência de uma diáspora liberal internacional com dimensões globais até mesmo nas Américas, incluindo o Brasil e no continente africano.

Houve a criação de redes pessoais e intelectuais de exilados portugueses, espanhóis, franceses, piemonteses, napolitanos mantiveram relações entre si e com apoiadores nos países de acolhimento, sendo a França e a Inglaterra os principais países receptores de exilados nos anos de 1820 e 1834.

Em decorrência da contrarrevolução portuguesa e regime de D. Miguel a partir de 1828, Silva Maia tornou-se um exilado político. Durante esse momento, exilou-se em diversos países na Europa, como Inglaterra, França, Países Baixo e retornou para o Império do Brasil em 1829. Também ao longo de seu exílio na Europa, escrevera textos de sua experiência e dos exilados portugueses, anos depois seu filho Emílio Joaquim da Silva Maia os imprimiu sobre o título Memórias (imagem principal deste artigo) e as entregou para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

Highlight (3): Silva Maia, O Brasileiro Imparcial no Rio de Janeiro

O exilado Silva Maia ao chegar no Brasil, aportando na capital do Império, não se desvinculou do contexto internacional que estivera inserido. Sabe-se que ele morou no centro do Rio de Janeiro, no espaço de sociabilidade e relação de poder. Ressalto que imediatamente, passou a redigir outro jornal conhecido como O Brasileiro Imparcial, que circulou durante o ano de 1830.

Ao atuar na imprensa brasileira, Silva Maia continuava defendendo as mesmas bandeiras, com especial atenção a causa dos exilados portugueses liberais, ao reinado de D. Pedro que se encontrava em crise, ao governo de D. Maria da Glória, ao mesmo tempo que combatia o regime de D. Miguel. A presença de exilados portugueses se fez notar no Brasil a partir de 1829, muito deles, chegados de Plymouth, Inglaterra.

O Brasileiro Imparcial ao defender o governo de D. Pedro I moderadamente se posicionava em um nível de contraponto os discursos dos liberais brasileiros, principalmente os fluminenses. A contraposição de ideias deu-se na própria imprensa, com destaque para os editores os jornais A Aurora Fluminense, Evaristo da Veiga, e o Astréa. Ambos periódicos fizeram parte do grupo de oposição ao Imperador, contribuindo com sua Abdicação em 1831.

No entanto, as confrontos entre Silva Maia e exilados portugueses e brasileiros liberais se manifestaram também nas ruas da cidade carioca. Foi uma conjuntura política na qual as disputas de identidades e distinção de nacionalidade se tornaram bastante aguçadas, uma violência nitidamente contra o elemento português desde os anos de 1821.

A trajetória de vida e atuação política de Silva Maia se encerrou em 1831, quando veio a óbito. Contudo, há mais que se estudar sobre suas atuações, experiências e contribuições, enfatizando (highlight ) como sua história, do ponto de vista micro-analítico, pode revelar contextos e conjunturas políticas para a história do Brasil, de Portugal e outros países já citados neste texto.

Referências consultadas

ALMEIDA, Raphael Rocha de. Constitucionalismo, imprensa e opinião pública nas monarquias dos Bragança: Portugal e Brasil (1826-1834). Tese de doutorado, História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019

ALVES, Walquiria de Resende Tofanelli. Política e historiografia na Independência: a trajetória de Joaquim José da Silva Maia entre Brasil e Portugal, 1776-1831. In: XXV Encontro Estadual de História. História, desigualdade e diferenças, 2020, Anais, ANPUH: São Paulo, 2020, p.1-17.

FARIA, Fabio Alexandre. Circulações internacionais e liberalismo. O exílio liberal português, 1828-1832. Dissertação de mestrado, História, Departamento de História – Instituto Universitário de Lisboa, 2015.

LUSTOSA, Isabel. Insultos e impressos: a guerra dos jornalistas na Independência. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LUSTOSA, Isabel. Silva Maia: o comerciante que as revoluções do Atlântico fizeram jornalista. Revista de História das Ideias. v. 39. 2a série, 201-221, 2021. Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/rhi/article/view/8907. Acesso em: 16 junho 2021.

LUSTOSA, Isabel. Notícias de Paris: a abdicação de Carlos X e o Brasil. Revista do IHGB, a. 176, 2015, p. 61-86. Disponível em:  https://ihgb.org.br/revista-eletronica/artigos-466/item/108119-noticias-de-paris-a-abdicacao-de-carlos-x-e-o-brasil.html. Acesso em 02 maio 2021.