Ivan Svitlychny: lute usando o poder da palavra

O personagem histórico que falarei nesse artigo, Ivan Svitlychny, é irmão da Nadiya Svitlychna, a qual apresentei já aqui no blog em momento anterior. Ivan era poeta, crítico literário, tradutor, membro do movimento democrático nacional da década de 1960, e tornou-se um exilado político durante a vigência da URSS.

Ivan Svitlychny nasceu em setembro de 1929 na vila de Polovynkino, região de Luhansk (onde atualmente é palco da guerra da Rússia na Ucrânia). Seus pais eram pessoas humildes, que trabalhavam forçosamente na condição de camponeses, nas fazendas coletivas, e não tiveram acesso à educação. Foi graças a sua mãe, que trabalhos extras durante a Grande Fome na Ucrânia chamada de Holodomor, entre 1932 e 1933, que toda a família não morreu de fome, como acontecera com a maioria dos vizinhos.

Depois de terminar seus estudos essenciais, ingressou em 1947 na Universidade de Kharkiv. Ali cursou Filologia na Faculdade de Língua e Literatura Ucraniana. Apesar de seu ótimo desempenho nas atividades acadêmicas, logo, passou a ser criticado por suas ideias independentes as quais contrastavam com o status quo – do governo soviético – da época.

Entre os anos de 1952 e 1965, Ivan Svitlychny iniciou seu doutorado no Departamento de Teoria Literária do Instituto Shevchenko da Academia de Ciências da Ucrânia. Também atuou em revistas locais e na própria instituição do seus estudos, bem como passou a editar os trabalhos da Associação Ucraniana para a Proteção da Natureza.

Anos depois, em Depois de 1965, foi demitido de todas as suas atividades e preso sob a acusação de “atividades nacionalistas” e “agitação e propaganda antissoviética”. Como decorrência, foi atribuída uma pena oito meses de cárcere. A motivação de sua da prisão foi porque havia salvo os poemas de Vasyl Simonenko através de gravações em que ele mesmo emprestara sua voz ao recitar as obras do poeta morto. Esse material foi contrabandeado para fora da União Soviética, e por isso, atualmente podemos desfrutar do trabalho de Simonenko, caso contrário, tudo poderia ter sido destruído pela KGB.

Libertado a partir de 1966, Ivan contatou outros dissidentes e trabalhou em diversas obras, nas quais fazia criações originais e traduções; todas essas clandestinas, pois não conseguiu mais emprego legal devido seu histórico de dissidente. Entretanto, isso não lhe impediu de defender alguns colegas, tais como Valentyn Moroz e Viatcheslav Tchornovil. Sobre eles, já escrevi aqui no blog (para leitura, só passar o mouse sobre o nome e clicar).

Como resultado de sua atuação na defesa dos direitos humanos e da cultura ucraniana, foi convocado à KGB para depor, momento que o ameaçaram nova prisão, caso não suspendesse suas atividades.

Como militante aguerrido, não parou suas ações, razão pela qual em 1972 foi preso pela segunda vez, pelos mesmos motivos da anterior – “atividades nacionalistas” e “agitação e propaganda antissoviética” – pautadas no artigo 62 do Código Penal da URSS. A pena: sete anos de trabalhos forçados nos campos de Perm região central da Rússia), acrescidos de cinco anos de exílio. Durante o cumprimento de sua pena, participou e liderou manifestações sobre a violação dos direitos humanos nos campos, fez greve de fome, e por isso, foi punido muitas vezes tendo sido levado à solitária, prisão que o privava do convívio coletivo.

Como resultado direto das más condições de vida a que estava exposto – trabalhos extenuantes, que, por causa da falta de alguns dedos, não conseguia desempenhar as funções – e gravemente doente, em 1978, Ivan foi enviado para Ust-Kan (região que faz fronteira com o Cazaquistão, na época pertencente à URSS) para iniciar sua pena de exílio. Sua esposa teve a permissão de acompanhá-lo devido à fragilidade de sua saúde. Nesse período, trabalhou como guarda noturno e encadernador de livros numa biblioteca, mesmo após dois derrames cerebrais que lhe restringiam muito sua independência.

Em 1984, retornou para Kyiv permanentemente deficiente. Nos três últimos anos de sua vida, não conseguia mais falar ou se movimentar. Mesmo nestas condições que fariam qualquer pessoa desistir de suas atividades, Ivan Svitlychny não só recebeu o Prêmio Vasyl Stus em 1989 como atuou como membro da União de Escritores da Ucrânia, em 1990.

Seu falecimento ocorreu em outubro de 1992, sendo enterrado na capital ucraniana. Postumamente, em 1994, recebeu o Prêmio Taras Shevchenko. Sua irmã, Nadiya, e sua esposa, Leonida, organizaram e publicaram em 1998 um livro intitulado “O homem com olhos gentis. Memórias de Ivan Svitlychny” afim de homenageá-lo, relembrando sua trajetória e atuação política durante os anos da URSS.

Na imagem abaixo, Ivan é reconhecido ao fundo, do lado esquerdo para o direito, sorrindo…

Ivan
Ivan é o primeiro homem da direita para a esquerda

Referências consultadas

A CHRONICLE OF CURRENT EVENTS. In the prison and camps [2], august 1977 (46.10). Disponível em: <https://chronicle-of-current-events.com/2021/04/06/in-prisons-and-camps-pt-2-46-10/>. Acesso em: 11 set. 2022.

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Svitlychny, Ivan Oleksiyovich. Disponível em: < http://museum.khpg.org/1113995727>. Acesso em: 11 set. 2022.

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Svitlychny, Ivan. Disponível em: < http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CS%5CV%5CSvitlychnyIvan.htm>. Acesso em: 11 set. 2022.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.