Da caneta à cadeia: Ivan Sokulsky, preso e exilado político

Todos os dias um poema morre em mim,
Não tenho tempo para enterrá-los.
Eu também estou morrendo…
Você não acredita?
Sem eles não quero viver!
Sem eles – não quero… Não sou eu –
É um estranho que se parece comigo!

                                                                                 Poema de Ivan Sokulsky

Imagine que você tem facilidade em expressar suas ideias e sentimentos no papel através de textos e poemas. Se isso ocorreu é muito interessante, não é mesmo? Mas não é tarefa fácil para toda pessoa, inclusive para o sujeito histórico que trataremos hoje, Ivan Sokulsky, pois seus escritos eram considerados crimes na União Soviética, isso lhe causou vários problemas.

Ivan Sokulsky nasceu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, em um vilarejo de Dnipropetrovsk. Foi de família de camponeses. Não há registros de sua educação básica, entretanto, sabe-se que estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lviv entre 1962 e 1964, sendo transferido para a Universidade de Dnipropetrovsk e expulso dela em 1965 sob acusações de nacionalismo.

Ainda, na cidade de Dnipropetrovsk, ele trabalhou em um jornal, em algumas fábricas, nas minas de carvão, e como bombeiro e marinheiro da frota fluvial até 1969 quando foi preso político. O motivo da prisão era a suspeita de que teria sido um dos autores de uma carta Carta dos Jovens Criativos de Dnipropetrovsk, publicada em 1968, que combatia a russificação da Ucrânia e defendia romance Catedral de Oles Gontchar, publicação também que causou polêmica no Governo Soviético. Para saber mais sobre a carta, clique aqui.

A condenação de Ivan

Ivan Sokulsky foi condenado em janeiro de 1970 por agitação e propaganda antissoviética, com base no Artigo 62 do Código Penal Soviético, a 4 anos e meio de trabalhos forçados num campo de concentração por ter sido um dos autores da carta, por ter facilitado a veiculação de leituras clandestinas e escrito poemas que ressaltavam sua pátria ucraniana.

Durante o cumprimento da pena, esteve preso nos campos da Mordóvia, na prisão Vladimir, no hospital psiquiátrico da Mordóvia n° ZhKh-385/3, nos campos de trabalhos para políticos em Perm (VS- 389/35 e VS-389/36). Foi libertado em dezembro de 1973.

Ivan e sua liberdade provisória

Livre, Ivan Sokulsky retornou para Dnipropetrovsk, e envolveu-se com manifestações sobre direitos humanos, ingressou em 1977 ao Grupo Ucraniano de Helsinque, e em 1979 assinou um memorando, afirmando que o grupo resistia, apesar de ser perseguido severamente pelo Governo Soviético.

Demonstrando seu comprometimento com a situação de seu país e de seu povo, escreveu uma declaração chamada Pelo direito de ser ucraniano que tratava das violações dos direitos humanos fundamentais na URSS, que foi publicada no Ocidente. Como consequência, Ivan Sokulsky recebeu uma advertência oficial do Governo Soviético.

Embora já ter cumprido a pena anterior em sua integralidade pelos seus poemas, mais uma vez eles foram colocados como um dos motivos da acusação, junto da declaração anterior. A acusação era de que Ivan tinha “o objetivo de subverter e enfraquecer o regime soviético” com seus escritos. A própria KGB (Comitê de Segurança de Estado, do Governo Soviético) ofereceu um advogado para sua defesa, mas Ivan recusou-se a obter proteção. Sua família só foi avisada da prisão depois da condenação.

 Como não havia testemunhas, Ivan se recusou a prestar depoimento e quando recebeu permissão para suas palavras finais, discursou por 6 horas. Foi condenado a 5 anos de prisão no Tartaristão, 5 anos de trabalhos forçados em campos especiais e mais 5 anos de exílio, totalizando 15 anos.

Em 1985 foi acusado novamente pelos mesmos crimes em um tribunal forjado a mais 3 anos de prisão e mais 5 de exílio. No mesmo ano foi levado para cumprimento do regime especial na prisão VS-389/36-1, onde ficou privado de se corresponder com qualquer pessoa e colocado na cela de isolamento várias vezes por se recusar as atividades do campo.

Ivan: a liberdade, uma utopia

Ivan Sokulsky foi libertado em 1988 devido a campanha de Mikhail Gorbachev, líder da União Soviética na época, para perdoar prisioneiros políticos. De volta à Ucrânia em 1989, ele foi um dos fundadores da Associação de Língua Ucraniana Tarás Shevchenko, e entre outras atividades, se destacam a participação no do Movimento Popular da Ucrânia, na União de Helsinque na Ucrânia, no Partido Republicano Ucraniano, além de ter publicado uma revista também.

Em 1991, durante as manifestações de apoio a independência da Ucrânia em Dnipropetrovsk, Ivan foi brutalmente espancado por agentes da KGB e foi hospitalizado em estado grave. Apesar de ter sobrevivido para ver seu país livre do Governo Soviético ainda em 1991, no ano seguinte ele faleceu. Duas obras foram publicadas pos mortem para homenageá-lo: Senhor da Pedra e Definição de Liberdade. Ouça, então, o áudio em ucraniano  e leia na íntegra o texto da entrevista em 2001 com a mãe Nadyia, esposa Orysia, filha Marichka e amigo Serhiy de Ivan Sokulsky.

Referências consultadas

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Ivan Sokulsky. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?id=1142497710>. Acesso em: 18 jun. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.