“Acredito que a nossa única arma é a verdade” : Leonid Plyushch

Imagine se você fosse enviado para um hospital psiquiátrico, contra a sua vontade e sem motivos médicos, para supostamente tratar uma doença que não existe. E lá, injetarem drogas como haloperidol e triftazina em seu corpo saudável, com a finalidade de testar e observar o que acontece. Foi justamente dessa forma que ocorreu com Leonid Plyushch, personagem que trataremos neste artigo.

Leonid Plyushch nasceu em abril de 1938 na cidade soviética de Naryn, atual Quirquistão. Sua família era ucraniana e provavelmente foi enviada para essa região durante a expropriação russa na implantação das fazendas coletivas. Sabe-se que Leonid formou-se em Matemática na Universidade de Kyiv, em 1962.

Leonid e seus primeiros interesses

Durante sua graduação, na década de 1960, dedicou-se a modelagem matemática de sistemas biológicos, com foco nas doenças mentais e referenciando-as com os níveis de açúcar no sangue. Não demorou muito para ser contratado pelo Instituto Cibernético da Academia de Ciências da URSS, onde frequentemente resolvia problemas para o programa espacial soviético.

Como não concordava com o tratamento desumano que os ucranianos recebiam durante o Regime Soviético, aderiu ao Grupo de Iniciação para Defesa dos Direitos Humanos, em 1969, a partir do qual escreveu artigos e promoveu manifestações de protesto contra as violações de direitos humanos. Além disso, Leonid enviou uma carta à ONU solicitando uma investigação sobre o desrespeito ao direito de ter uma crença na , entretanto, não houve resposta.

A suposta doença de Leonid

Leonid Plyushch foi demitido do emprego no mesmo ano, teve sua casa invadida e revistada pelos oficiais da KGB, e seus manuscritos foram confiscados. Foi interrogado várias vezes. Em 1972 foi preso, acusado de atividades antissoviéticas e só recebeu um julgamento, um ano depois. 

Entretanto, o julgamento foi a portas fechadas e sem a presença de Leonid ou de testemunhas – ressalte-se que essa tratativa é bastante semelhante como as experiências de seus conterrâneos, como já escrevi Valentym Moroz, Danylo Shumuk e Ivan Kandyba. O veredito: loucura; o tratamento: Hospital Psiquiátrico Especial de Dnipropetrovsk.

Sem um julgamento justo e sem possibilidade de defesa – nem Leonid ou seu advogado tiveram acesso ao processo de acusação – ele foi enviado para o cumprimento de sua pena, ou como foi chamada, tratamento. Sem seu consentimento, recebeu altas doses de haloperidol, triftazina e até insulina, que lhe incapacitaram para escrever ou ler qualquer coisa, além de provocar delírios que justificavam seu diagnóstico de esquizofrenia lenta, segundo seus médicos.

O resultado do International Leonid Plyushch Day

O encarceramento de Leonid trouxe comoção internacional. Seiscentos e cinquenta matemáticos americanos escreveram uma carta e enviaram para a Embaixada Soviética. Na carta, pedia-se por sua liberdade. Matemáticos franceses que se aliaram à Anistia Internacional patrocinaram o International Leonid Plyushch Day, uma reunião pública que contou com a participação de cinco mil pessoas, ocorrida no dia 23 de outubro de 1975. Essa reunião teve por natureza protestar contra a prisão. Foi o maior evento do mundo para apoiar a causa de um prisioneiro de consciência soviético.

Devido as manifestações internacionais, ele e sua família receberam permissão para emigrar da Ucrânia em 1976. Decidiram exilar-se na França, onde passou até a sua morte, porém a luta de Leonid pelos ucranianos continuou firme. No ano seguinte, em 1977, juntou-se ao Grupo Ucraniano de Helsinque (assim Mikhaylo Horyn, Viatcheslaw Tchornovil, Ivan Sokulsky, Danylo Schumuk, Oleksander Serhiyenko, Nadiya Svitlychna, Ivan Kandyba e Levko Lukyanenko) e publicou sua autobiografia – No Carnaval da História – por meio da qual narra os horrores que lhe acometeram.

Durante uma entrevista, após o lançamento do seu livro, Leonid respondeu a seguinte pergunta: – Por qual sociedade você está lutando na União Soviética?

Acima de tudo, para a Ucrânia, poder escapar da russificação. Esta república é composta por 50 milhões de pessoas, o que é próximo à população da França. Ela tem seu próprio idioma e cultura. O governo russo faz de tudo para esmagar nossa singularidade e impor suas ideias. A tal ponto que, quando estava em uma biblioteca de minha aldeia, pedi informações na minha língua e me responderam: ‘Fale comigo em uma língua humana.’ De repente, eu soube o que era ser judeu. Isso me afetou profundamente. Hoje, as prisões estão cheias de ucranianos que lutam pelo reconhecimento de sua cultura.

 

O recomeço de Leonid e sua memória viva

Libertado, em 1978, aproveitou para visitar ucranianos na Austrália. No âmbito acadêmico, dedicou-se ao estudo da Literatura, publicando diversas obras, entre elas, uma sobre Taras Shevchenko.  Jornais e revistas nos idiomas ucraniano e russo também publicaram seus artigos sobre questões literárias e políticas.

Em 1989, durante a reunião em Viena sobre o Acordo de Helsinque – mesmo ano da queda do Muro de Berlim– Leonid afirmou que desde os anos 1960 os problemas dos ucranianos na União Soviética eram discutidos, mas jamais resolvidos, e que para resolvê-los era necessário tratar da questão dos direitos humanos. E ainda, de nada adiantava a discussão, se apenas os russos controlavam o governo soviético e não permitiam que outras etnias que faziam parte da “república socialista” participassem de nenhuma tomada de decisão. 

Durante a década de 90 e início do século XXI, Leonid participou de diversas atividades em defesa dos ucranianos, falecendo em junho de 2015, na França, onde morava. Sua memória permanece viva, como uma das muitas vítimas da psiquiatria punitiva soviética.

Referências consultadas

A CHRONICLE OF CURRENT EVENTS. The case of Leonid Plyushch. Disponível em: <https://chronicle-of-current-events.com/2019/06/29/the-case-of-leonid-plyushch-25-29-january-1973-29-6/>. Acesso: 15 out. 2021.

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Plyushch, Leonid. Disponível em: <http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CP%5CL%5CPliushchLeonid.htm>. Acesso: 15 out. 2021.

VOICES OF UKRAINE. Leonid Plyushch, activist and dissidente: a remembrance. Disponível em: <https://maidantranslations.com/2015/06/06/leonid-plyushch-activist-and-dissident-a-remembrance-freesavchenko-freesentsov-freekolchenko-freekostenko/>. Acesso: 15 out. 2021.