Levko Lukyanenko: traidor para a URSS, benfeitor para a Ucrânia

Procedência, origem familiar e formação

De ascendência ucraniana e camponesa, Levko Lukyanenko nasceu no ano de 1928 na aldeia de Khrypivka, ao norte da Ucrânia, sob o domínio da URSS. Aos 15 anos de idade, alistou-se no exército soviético, servindo no Cáucaso e na Áustria. Esse último local fez toda a diferença na sua futura atuação política, pois lá ele vivenciou a chegada dos grãos ucranianos retirados compulsoriamente dos agricultores pelo governo soviético, lembrando-se do Holodomor que atingiu sua família também.

Com isso, Lukyanenko decidiu lutar por uma Ucrânia independente e os meios para isso ele encontrou dentro dos altos escalões da URSS, do qual fez parte. Ingressou em 1953 no curso de Direito da Universidade de Moscou e no Komsomol, que em decorrência o levaram ao Partido Comunista da União Soviética, onde percebeu que estava do lado errado da luta. Cinco anos depois, advogou em Lviv, a partir de 1958.

Acusações e prisões

Assim como Ivan Kandyba, Lukyanenko foi acusado de traição à pátria (artigo 56 – Traição ao Estado e artigo 64 – Criação de uma organização nacionalista clandestina, ambos do Código Penal da URSS) ao liderar a criação “subversiva” do Sindicato de Trabalhadores e Camponeses Ucranianos e ser o responsável pela elaboração de seu estatuto, obtendo a pena máxima por fuzilamento. Diante disso, Lukyanenko foi expulso do partido em 1961, e em seu julgamento clandestino dissera que aprendeu em Moscou que o Direito na URSS não era algo fictício, mas real e tudo que as leis soviéticas permitiam poderia ser realizado pelos seus cidadãos. Logo, sua atuação se pautava dentro da Constituição Soviética. E ainda no caso de uma nação, para traí-la seria necessário possuí-la, afinal, os ucranianos se veem privados de sua pátria há séculos e quando decidem levantar a tese de libertá-la, são acusados de traidores (HANEIKO, 1963).

Entretanto, dois julgadores russos – Starikov e Denisov – rebateram, nesse mesmo julgamento, o depoimento de Lukyanenko argumentando que mesmo a maioria da população ucraniana tendo declarado o desejo de separação do bloco soviético, o governo utilizaria as forças armadas para mantê-la nesse mesmo bloco.  Lukyanenko ao continuar na sua defesa afirmou: “Em que diferem estas ideias das de Goebbels sobre as raças e nações superiores e inferiores? Nós ouvimos bastante […] sobre formulações da inferioridade do povo ucraniano, bem como a de outros povos eslavos”. Denisov ao ouvir (e saber) que seu acusado tinha razão, pois não cometia nenhum delito e sua atuação estava assegurada na Carta Magna, exclamou: “A Constituição existe para o exterior!”.

Depois de exaustivos depoimentos frente à vários acusadores – todos russos – e meses preso com colegas de cárcere escolhidos a dedo que lhe incitavam e provocavam sob vários aspectos (escolhas e rodízio feitos a mando da NKVD – KGB), a pena de morte de Lukyanenko foi convertida em 15 anos num campo de prisioneiros.

Os 3 primeiros anos de sua prisão foram direcionados para campos de trabalho forçado, depois ele foi encarcerado por um tempo em cada campo, sendo levado para outro tão logo se percebia que havia necessidade, e mantido preso inclusive por duas vezes no temido VS-389/36-1 (conhecido como campo Vladimir).

Novas atuações políticas e honrarias

Foi libertado em 1976 e no ano seguinte liderou a fundação do Grupo Ucraniano de Helsinque, que lhe rendeu nova sentença resultando em 10 anos de prisão e mais 5 de exílio por agitação e propaganda anti-soviética. Na década de 80, sob o governo de Gorbachev lhe propuseram que emigrasse como alternativa para o encarceramento, mas ele recusou ocasionando novo exílio em Berezovka. Depois de 27 anos preso, Lukyanenko foi libertado em 1988.

Em 1990, tornou-se membro do Parlamento Ucraniano, chefe do Partido Republicano Ucraniano, co-autor da Declaração de Soberania de Estado da Ucrânia e o autor da Declaração de Independência da Ucrânia, adotada em 1991, mesmo ano da independência. Concorreu as eleições presidenciais, nesse ano, classificando-se em 3° lugar. Foi embaixador ucraniano no Canadá entre 1992 e 1993 e nos quatros anos seguintes, atuou como Deputado do Povo (equivalente a deputado estadual), representando a região de Novovolynsk.

Em 2005, Lukyanenko recebeu o título de Herói da Ucrânia, e em 2006 compôs novamente o Parlamento; em 2007, recebeu a Ordem do Príncipe Yaroslav, o Sábio, um alta honraria na Ucrânia. Foi presidente do Partido Republicano Ucraniano em 2010. Em 2016, recebeu o Prêmio Nacional Shevchenko e durante seus últimos anos de vida fez algumas declarações embaraçosas sobre questões racistas, causando desconforto entre aqueles que lhe admiravam. Faleceu há pouco mais de dois anos, em julho de 2018, em Kiev, na Ucrânia.

 

Referências consultadas

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974; KHARKIV HUMAN RIGHTS PROTECTION GROUP. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php>. Acesso em: 14 abr. 2021.