Mãe e presa política na URSS: Nadiya Svitlytchna e sua defesa por direitos humanos

A história que eu vou contar é a de Nadiya Svitlychna. Como sabemos, não é possível narrar toda uma vida de maneira biográfica. Vou falar de alguns momentos (fragmentos) dessa personagem: sua formação, o que a levou a ser presa, sua defesa por direitos humanos e parte de sua experiência fora da Ucrânia; e começo por essa imagem quando Nadiya já tinha certa idade e morava em Nova York, nos Estados Unidos.

Origem, formação e atuação

Mas Nadiya Svitlytchna nasceu em 1936 num distrito rural ucraniano de Luhansk, local conhecido como Portão oriental da Ucrânia (com a Rússia), onde ocorre a atual Guerra do Donbass. Era irmã do crítico literário Iván Svitlytchny e esposa do ativista Danylo Chumúk, ambos presos políticos no contexto da URSS.

Este vestido pertenceu a Nadiya Svitlychna, que ela usou enquanto estava presa em um campo de trabalhos forçados perto do vilarejo de Barashevo, na Mordóvia, em 1972-1976. Este é um vestido de verão de algodão com uma gola bordada com base em estilos vistos frequentemente como parte do vestido nacional ucraniano. O colar era destacável para que pudesse ser removido rapidamente, porque os administradores do campo proibiram tais adornos. 

Kulick, Orysia Maria                                               

                          

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Formada na Universidade de Kharkiv em 1958, Kadiya atuou como professora numa escola em Krasnodom e Donbass, tendo também trabalhado como diretora e bibliotecária. Pouco menos de dez anos depois, em 1964, mudou-se para Kyiv e começou a trabalhar no corpo editorial de uma revista. A revista pertencia a uma escola rural técnica na qual Kadiya trabalhava durante o dia e dava aulas no período noturno. A mudança de cidade foi um divisor de águas na sua vida, pois juntamente com seu irmão conheceram o Clube para Jovens Criativos. A partir disso, toda sua trajetória foi influenciada ao conhecer os futuros dissidentes dos anos de 1960, como a artista Alla Ghorska.

Durante os festejos do XXIII Congresso do Partido Comunista na União Soviética, em 1966, Nadiya enviou um telegrama ao Kremlin pedindo a libertação de seu irmãIvan Svitlyychny, preso injustamente; assim, enviou uma solicitação para o procurador da cidade de Kyiv afim de obter um advogado para defendê-lo, mas todos os pedidos de ajuda foram recusados.

No ano seguinte, ela participou de manifestações próximas ao monumento de Taras Shevchenko, um dos maiores maior poetas ucranianos, momento que marcou as perseguições da KGB com Nadiya. Ainda no mesmo ano, assinou uma carta coletiva que qualificava o julgamento de Viatcheslaw Tchornovil como uma violação das normas processuais soviéticas. Como se vê, durante esses anos ela atuava evidentemente na defesa dos direitos humanos, inclusive no seu contexto particular com seu irmão.

KGB – prisão e acusações sem culpa formada

As perseguições da KGB – Comitê de Segurança do Estado, organização de serviços secretos da União Soviética – se mantiveram e em 1968 ela foi forçada a deixar seus empregos na escola e na revista. Em 1972 foi intimada a depor (durante o depoimento seu apartamento foi invadido e vistoriado por membros da KGB que roubaram aproximadamente 1.800 livros) e separada de seu filho de 2 anos, do qual não sabemos o nome, usado como moeda de troca para arrancar confissões de crimes inexistentes. Ainda, nesse mesmo depoimento, foi agredida e obrigada a assinar um documento indicando quem cuidaria do pequeno, já que ela seria encarcerada.

Seu filho foi mandado contrariamente para um orfanato, apesar de Nadiya ter indicado a curatela de seu filho; mas, a ação revertida semanas depois graças à atuação de sua família que enviou o pequeno para a tutela da avó, que ainda não sabemos seu nome.

Ela esteve presa na sede da KGB por quase um ano, isolada; acusada de agitações e propagandas antissoviéticas, tendo sido condenada a 4 anos de trabalhos forçados num campo de concentração em 1973 – o No. ZhKh-385/3 para presos políticos em Mordóvia. Antes da conclusão de sua pena foi levada à força a Luhansk para escolher um local onde viveria após o cumprimento da pena, recusando todos. Libertada, Nadiya preferiu morar em Kyiv com sua cunhada e por não ter conseguido emprego foi acusada de “parasitismo”, já que era ilegal não ter trabalho e viver “de favor” na URSS. Em 1976 rejeitou sua cidadania soviética, e casou-se novamente e durante 30 dias conseguiu trabalhar como zeladora numa escola, sendo interrogada novamente e demitida. Em 1978 nasceu seu segundo filho.

Vivências fora de sua pátria

Durante 1978, Nadiya conseguiu permissão para ir à Roma sendo recebida pelo Papa Paulo VI e de lá conseguiu viajar para os Estados Unidos com seus dois filhos. Oito anos depois, em 1986, perdeu sua cidadania soviética. Atuou efetivamente na Universidade de Harvard como tradutora e como representante externa do Grupo Ucraniano de Helsinque ao defender os direitos humanos e nacionais na Ucrânia contra as violações soviéticas, contribuiu com publicações no Boletim de repressão na Ucrânia; entre 1983 a 1994 participou de transmissões na Rádio Svoboda (Liberdade), decifrou e publicou materiais contrabandeados de campos de concentração ucranianos, trabalhou no Museu Ucraniano de Nova Iorque, foi colunista de uma revista feminina. Ao final de sua vida escreveu um livro com seu irmão e faleceu de uma doença grave em 2006.

Referências consultadas

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Nadiia Svitlychna. Disponível em: <http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CS%5CV%5CSvitlychnaNadiia.htm>. Acesso em: 15 maio. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

KHARKIV HUMAN RIGHTS PROTECTION GROUP. Nadiya Svitlychna. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?id=1155706346>. Acesso em: 15 mai. 2021.