A importância da mídia-educação e das TDICs






Reflexões sobre TDICs e Mídia-educação são indispensáveis

Um tema que tem despertado o meu interesse e a minha atenção há algum tempo é o das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs). Ele encontra proximidade com as Humanidades Digitais, que compreendem diversas áreas do conhecimento e da ciência, inclusive o campo da História. As novas e novíssimas TDICs vão se tornando cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia. Dessa forma, os seus usos e reflexões são indispensáveis, como também, sobre a mídia-educação.

Essa característica imprescindível das tecnologias, sejam as analógicas ou digitais, nos faz parar para pensar que não conseguimos ou conseguiremos viver sem que nos relacionemos com elas, com o universo tecnológico, com o virtual e o ciberespaço. Me parece bastante difícil pensar em um mundo sem mídias e redes sociais também, justamente pelo fato de que essa indispensabilidade se impregnou na sociedade, em todas as esferas da vida social, política, econômica, cultural.

Porém, além de pensar no modo como estamos nos relacionando com as tecnologias e como nossas relações humanas, com efeito, são alteradas, são necessários mais estudos, reflexões e apropriações críticas de softwares, aplicativos, mídias e redes sociais, jogos digitais, smartphones e todo tipo de eletroeletrônico que vem modificando nossas interações pessoais, visão de mundo, práticas profissionais, inclusive no campo da Educação.

O que é mídia-educação?

Nas últimas semanas, participei de um encontro com o grupo de pesquisa do qual faço parte no âmbito universitário. O nome desse grupo é Mídia, Tecnologia e História, ou simplesmente MITECHIS, sigla atualmente compartilhada. Vinculado à Universidade Federal do Tocantins (UFT), é um grupo do CNPq, sob a coordenação do historiador George Seabra Coelho. O MITECHIS possui redes sociais e para conhecê-lo basta clicar aqui.

O objetivo central desse grupo é discutir os usos das TDICs na pesquisa histórica, no ensino de história e nas relações sociais, pois, conforme diz Nelson de Luca Pretto, autor importante para os trabalhos do MITECHIS: a formação de um novo ser humano, que viva plenamente esse mundo de comunicação, exige uma nova escola e um novo professor (PRETTO, 1996, p. 15). Nas referências consultadas, vou deixar indicado o livro desse pesquisador, e finalmente complemento com uma citação afim de instigar a sua reflexão.

A Educação que queremos transcende os espaços formais e se concretiza à medida que vai transformando a pessoa. Para essa transformação, nos colocamos a serviço numa atitude colaborativa, mediadora e aprendiz. Este é o nosso sonho de realidade.

           Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em História (UFTM-Uberaba)

No último encontro do MITECHIS discutimos sobre o tema da mídia-educação, que tem grande aproximação com as propostas do grupo. A mídia-educação possui uma trajetória e é interpretada como ideia e como movimento social. Mídia-educação significa, então, falar a linguagem dos estudantes, usando os meios de comunicação para criar condições ótimas de ensino, tendo como prioridade a comunicação sobre os padrões escolares.

Uma pesquisadora que estuda esse assunto é Maria Luiza Belloni, que ao longo de seus estudos, fez um exílio voluntário em Paris nos anos de 1970. O exílio dela se cruzou com o exílio não voluntário, forçado, de Paulo Freire em Genebra, momento que pôde conhecer propostas de experiências educacionais. Nesse período de exílio da especialista, assistia-se no Brasil o chamado “anos de chumbo”, pelo caráter autoritário e repressivo da ditadura civil militar brasileira (1964-1989).

É justamente nessa época, conturbada e contraditória da ditadura a partir dos anos de 1960, que se enquadra a primeira fase da mídia-educação, ou seja,  período em que apareceu a mídia-educação entre comunicadores e educadores, muitas vezes, ligados às igrejas. A grande preocupação era com o poder ideológico das mídias de massa e sua relevância na formação de jovens e adultos.

Durante e após a década de 1970, muitas outras definições sobre mídia-educação apareceram como resultado de discussões, principalmente em encontros internacionais, na maioria promovidos pela Unesco. Mídia-educação inclui a inclusão e cidadania digitais e é uma questão de direitos humanos, isto é, a mídia-educação aparece como um direito da criança, do adolescente, de jovens e adultos. Nesse sentido, é importante considerar a formação inicial e continuada de professores.

Portanto, algumas definições mais atuais da mídia-educação são inclusão digital (1), dimensão objeto de estudo (2), dimensão meio de expressão (3) e dimensão ferramenta pedagógica (4).

  • A primeira, está ligada à possibilidade de que todos se tornem produtores midiáticos de modo que sejam capazes de apropriação crítica das tecnologias; mídia-educação significa ainda pensamento crítico;
  • A segunda, refere-se à leitura crítica de mensagens midiáticas, as linguagens;
  • A terceira, é sobre o estímulo a participação ativa dos educandos considerando as diversidades culturais e identitárias, sendo essencial para a cidadania;
  • A quarta e última, está ligada à aprendizagem e integração da mídia aos processos educacionais.

Mídia-educação e TDICs: integração aos processos educacionais

Entre os dias 23 e 24 de setembro de 2010, Maria Luiz Belloni fez uma apresentação no III Seminário de Pesquisa em Mídia-Educação, ocorrido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, e disse ser importante integrar as TICs aos processos educacionais, pois é necessário que conheçamos novos modos de aprender com as tecnologias para poder ensinar as futuras gerações e aos nativos digitais.

No Brasil, de acordo com a especialista, o balanço da mídia-educação e da integração das tecnologias de informação e comunicação revela um parcial fracasso, porque não há TDICs na formação inicial e continuada de professores, inclusive os da área de História. Dessa forma, com professores despreparados, na maioria dos casos, as escolas estão cheias de computadores, sem uso e qualidade.

No entanto, Maria Belloni deixou escrito em tom otimista que já existem alguns professores “nativos digitais”, embora sejam poucos, essa nova geração que estão incluindo o tema da mídia em suas reflexões e fazendo o uso dos computadores e de outras tecnologias em suas práticas profissionais.

Cenários de mudança significam inclusão, ou seja, acesso de todos a todas as tecnologias, numa perspectiva crítica e criativa de uso dos objetos técnicos mais sofisticados, como meios de emancipação do ser humano e de construção da cidadania, contra a lógica industrialista do capitalismo globalizado, como base no princípio de que ‘ser cidadão significa estar alfabetizado em todas as linguagens’

Podemos dizer com tudo isso que a mídia-educação é necessário à participação e à democracia, sendo, finalmente, importante para a cidadania. Veja abaixo uma entrevista concedida pela especialista Maria Luiza Belloni ao SIED EnPED. No vídeo, ela diz sobre o tema da mídia-educação e sua importância para a educação contemporânea, assim como os benefícios e desafios, além disso, dá dicas para novos pesquisadores e estudantes.


Considerações finais

O meu interesse neste assunto é pelo fato de que o tema do exílio político do início do século XIX, que venho desenvolvendo nos últimos anos, busco aproximá-lo com as Humanidades Digitais. Ao desenvolver a pesquisa, utilizo softwares para mineração dos dados e informações obtidos, analisando-os qualitativa e quantitativamente. Por esse motivo, acho importante cada vez mais estar em diálogo com os estudos sobre as Humanidades, as TDICs e a mídia-educação.

 A mídia-educação tem uma trajetória, seu surgimento aparece nos anos 1960 e de lá para cá passou por vários significados. Foi interpretada por Maria Luiza Belloni como ideia e como movimento, aspectos que teve a participação de educadores, especialistas, associais, instituições religiosas e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Há cada vez mais a necessidade de integrar às Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) aos processos educativos, a formação inicial e continuada de professores, aos currículos escolares. A mídia-educação deve ser considerada como um pensamento crítico, uma apropriação crítica da tecnologia, sendo possível sermos produtores críticos de conhecimento. Pensar e estudar este tema, contribuindo com sua divulgação é projetar as novas gerações ao centro do debate. Trata-se de uma construção da cidadania e da cidadania digital, direitos, inclusão digital, democracia e democratização tecnológica.

Referências consultadas

BELLONI, Maria Luiza. Mídia-Educação: contextos, histórias e interrogações. In: RIVOLTELLA, Pier Cesare; FANTIN, Monica (orgs.). Cultura digital e escola. Pesquisa e formação de professores. Campinas, SP: Papirus Editora, 2012, sem paginação. 

PRETTO, Nelson de Luca. Uma escola sem/com futuro: educação e multimídia. Campinas, SP: Papirus Editora, 1996.