A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile

Hoje vou falar aqui sobre o livro “aventura de Miguel Littín clandestino no Chile”, publicado pela primeira vez em 1986, e de autoria do escritor colombiano Gabriel García Márquez, mais conhecido como Gabo. A obra é uma reportagem escrita a partir dos relatos pessoais do cineasta chileno, Miguel Littín. O protagonista do livro de Gabo estudou teatro na Universidade do Chile e trabalhou como diretor de televisão da mesma instituição. Desde o início de sua trajetória cinematográfica, Miguel Littín teve contato com filmes que abordam temáticas políticas e sociais.

Golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile

Em 1971, durante o governo de Salvador Allende, Miguel Littín assumiu o posto de diretor da Chile Films, empresa estatal de cinema do Chile. Apesar da aproximação com o socialista e de ser conhecido como um profissional militante, ele jamais se filiou a um partido político. A sua relação com o Allende é retratada no livro de Gabo, assim como a memória em torno do ex-presidente marxista, construída após o golpe de 11 de setembro de 1973. A consolidação da ditadura militar liderada por Augusto Pinochet fez com que Littín e diversos outros simpatizantes da Unidade Popular – coligação de partidos de esquerda que apoiaram a candidatura de Salvador Allende – deixassem o Chile e partissem para o exílio.

Miguel Littín clandestino no Chile

O livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile possibilita discutir inúmeras questões sobre a História do Tempo Presente no Chile. Porém, aqui, destacarei o exílio do cineasta e suas particularidades. Após o golpe, Littín se exilou-se no México e continuou filmando obras de cunho político e social, se destacou como figura importante do cinema latino-americano. Ele entendia a desigualdade social existente em seu país como um resultado da exploração a qual era submetida toda a América Latina. A experiência do desterro foi importante para que ele conhecesse outras áreas da região e suas semelhanças e diferenças com o seu local de origem.

O livro de Gabo teve como fonte principal uma entrevista de 18 horas de duração que ele realizou com o cineasta

Nessa obra, Littín contou sobre a façanha que provavelmente foi a mais audaciosa de sua vida: o seu retorno clandestino ao Chile em 1985 para gravar um filme que denunciava a ditadura militar. Para a realização do feito, ele contou com diferentes equipes europeias e latino-americanas e uma série de contatos com militantes, políticos, sindicalistas e camponeses contrários ao autoritarismo de Pinochet. O documentário filmado clandestinamente por Littín e seus colaboradores recebeu o nome de Ata General do Chile e esteve presente no Festival de Veneza de 1986, se consolidando como uma destacável ferramenta de resistência contra os militares.

A "aventura" do exilado Miguel Littín no Chile

Na obra aqui discutida são revelados os bastidores por trás da operação. Miguel Littín teve que realizar uma grande transformação física e psicológica para se preparar para o ato e colocá-lo em prática, o que lhe causou certa angústia. Em algumas partes da entrevista, o cineasta disse que vivenciou um “exílio dentro do exílio”, pois foi clandestino em seu próprio país. E, além de tudo, foi obrigado a mudar tanto suas características a ponto de que nem sua mãe lhe reconhecia. As mudanças sofridas corroboraram para que o diretor do documentário sofresse um exílio de si mesmo.

Em 1984, o governo chileno divulgou algumas listas de exilados proibidos de retornar ao país, e entre elas, constava o nome de Miguel Littín. Nesse momento, o país se deparava com uma crise econômica e uma série de manifestações populares. À medida que a luta contra a ditadura militar crescia, os instrumentos de repressão foram intensificados pelo Estado  chileno. Para o cineasta, tornar-se exilado em seu próprio país é a forma mais amarga do exílio. Afinal, envolve não realizar contato com os afetos de antes, sobretudo a própria família, que podia ser perseguida pelos militares ao menor deslize protagonizado por ele e as equipes que filmavam o documentário.

Ao reencontrar um casal de conhecidos dos tempos antes do exílio, em uma pensão que frequentava no Chile, quando almoçava com sua esposa Ely, disse que:

Só naquele momento tive a consciência de como eram longos e devastadores os anos de exílio. E não apenas para os que foram embora, como supunha até então, mas também para eles: os que ficaram.” A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile

Dilemas do exílio

De acordo com a reportagem de Gabo, Littín observou os comportamentos dos chilenos que viviam no Chile e dos exilados e os comparou. O sujeito exilado em questão viveu a angústia da sua vida de “antes” e de “depois”. Ao retornar ao país de origem, mesmo que ilegalmente, as diferenças entre essas etapas se tornaram mais nítidas e, em muitos sentidos, dolorosas.

Miguel Littín vivenciou o confronto entre temporalidades, espaços geográficos, memórias individuais e coletivas e contextos históricos distintos. Além disso, continuou exercendo participação ativa em atividades políticas e sociais no exterior. Seria uma forma de ter um pouco do Chile perto de si? De lutar contra a estrutura militar que lhe outorgou a posição de inimigo do seu próprio povo? As respostas aos questionamentos podem ser encontradas no livro de Gabo.

Finalmente, A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile é um livro de leitura simples e curta, mas que traz à tona assuntos complexos e sensíveis que correspondem ao passado de inúmeros exilados políticos da América Latina das décadas de 1970 e 1980. Questões que englobam um “passado que não passa” e ainda se manifesta em gerações latino-americanas que atuaram contra as ditaduras e sofrem as suas consequências até os dias atuais.

Referências consultadas

MÁRQUEZ, García. A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile. Editora Record, 4 ed., 1988.

Miguel Littin, disponível em Memoria Chilena: http://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-92834.html

Miguel Littin, entre o Chile e o exílio, disponível em Carta Maior: www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cinema/Miguel-Littin-entre-o-Chile-e-o-exilio/59/50259