Se você quer liberdade, você tem que reconhecer a liberdade de outras pessoas: Mykola Matusevych

O personagem deste artigo, diferente de outros dissidentes já apresentados aqui no blog, ainda está vivo! Seu nome é Mikola Matusevych, que se recusa a deixar seu país, mesmo durante a guerra em curso da Rússia na Ucrânia.

Mikola Matusevych nasceu em 1946 em Matyusha, perto da capital ucraniana. Seu pai era agrônomo e sua mãe bióloga. Ele estudou História na Universidade Estadual de Kyiv, mas foi expulso no último ano por colocar flores no monumento de Taras Shevchenko (maior poeta da Ucrânia), no aniversário de sua morte em 22 de maio. A justificativa da instituição foi de que isso se tratava de um comportamento político suspeito.

Mikola foi membro fundador do Grupo Ucraniano de Helsinque, e participou do primeiro memorando sobre a violação dos direitos humanos na Ucrânia por parte do governo soviético.

A casa de Mikola, assim como a de outros membros do grupo – Oles Berdnyk, Mykola Rudenko e Oleksa Tykhy – foi invadida em 1976. Nesse momento, diversos objetos “proibidos” durante o Regime Soviético foram confiscados pelo governo. Entre eles, um rifle de caça alemão, fotos de nudez e 40 dólares em papel.

No episódio, Mikola não foi preso. Mas como protesto, liderou um greve de fome pela prisão sem culpa formada de seus colegas. A greve não teve sucesso, o que o levou a redigir um apelo a todos os países signatários do Acordo de Helsinque. O objetivo era que se manifestassem a favor da libertação dos prisioneiros.

Em março de 1977, num evento em Kyiv para homenagear o mesmo poeta ucraniano, Mykola quebrou o protocolo soviético e incitou os presentes a recitar coletivamente um poema escrito pelo homenageado. Os organizadores tentaram impedi-lo, mas não conseguiram. No mesmo ano, em abril, ele foi preso acusado de agitação e propaganda anti-soviética, além de vandalismo. Sua acusação pautava-se na sua participação e produção de documentos junto ao Grupo Ucraniano de Helsinque e pela sua atuação no evento.

Foi julgado em 1978 e recebeu a pena máxima pelos crimes: 7 anos de trabalhos forçados em regime severo, acrescidos de 5 anos de exílio. O campo de trabalhos forçados escolhido para ele foi o de Perm, Campo número VS-389-35. Depois disso, sua esposa – Olga – e sua irmã, passaram a ser perseguidas pelos soviéticos. A sua irmã, trabalhava numa fábrica como engenheira e depois da prisão dele, passaram a afirmar que seu trabalho não era de confiança, pois seu parente era um criminoso.

Durante o cumprimento de sua pena, Mykola Matusevych escreveu várias cartas e fez greves de fome como protesto em relação às violações dos direitos humanos para com os prisioneiros. Sua atuação foi essencial para a publicação no dia 25 de abril de 1979 do documento intitulado “Documento n° 87 Sobre a posição dos prisioneiros nos campos de trabalho soviético”.

Como represália, perdeu o direito de receber visitas e cartas e, por um período de 10 meses foi colocado 9 vezes em celas solitárias de punição especiais – onde os prisioneiros sofriam com os “esquecimentos” dos guardas, esqueciam de alimentá-los, de aquecê-los e de hidrata-los.

Sua mãe, cansada do sofrimento do filho, apelou à KGB em 1980. No final do mesmo ano, incitou à Conferência de Madri, à Cruz Vermelha Internacional, e em 1981, até ao 26° Congresso do Partido Comunista da União Soviética pelas condições dos prisioneiros. Como consequência, Mykola Matusevych foi condenado a mais 3 anos de prisão e enviado à prisão de Chistopol, na República Autônoma do Tartaristão.

Já durante o degelo, do governo de Gorbachev, em 1988, ele recebeu um indulto, mas se recusou a aceitá-lo, exigindo extinção total de sua pena. Em razão disso, sofreu vários atentados contra a sua vida.

Durante 10 anos, Mykola foi forçado ao exílio, somando todas as suas penas. Sua motivação em resistir pela Ucrânia deriva de sua mãe, que vivenciou o Holodomor. Quando ele era criança, ela sussurrava histórias desse período obscuro em que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tinha como política de estado assassinar os ucranianos. Foi isso que motivou Matusevych a lutar pelo seu país.

Enquanto estava nos campos de concentração, ele afirmava:

Havia pessoas muito inteligentes com quem me sentava nos campos. Kovalev e outros dissidentes conhecidos. Acadêmicos, pessoas educadas, muito mais educadas do que eu. Mas eles não entenderam que se você quer liberdade, você tem que reconhecer a liberdade de outras pessoas. Você não precisa estudar para entender isso! Você deve ser capaz de desejar aos outros o que deseja para si mesmo.


Atualmente, Mykola Matusevych vive em Vasylkiv, há 25 km de Kyiv, mesmo durante a guerra atual – entrevista realizada com ele -. Está com 76 anos, e como sua renda não supre suas necessidades, vive da construção de objetos, geralmente em madeira. Constantemente, ele é procurado por repórteres e historiadores para ser entrevistado, pois é um dos últimos dissidentes ucranianos vivos do regime soviético.

Referências consultadas


DISSIDENT MOVIMENT IN UKRAINE. Matusevych, Mykokla. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/1113917146>. Acesso em: 14 mai. 2022.

LA PRENSA LATINA. Sobrevivente ucraniano do gulag reflete sobre os últimos 30 anos após a queda da URSS. Disponível em: <https://www.laprensalatina.com/ukrainian-gulag-survivor-reflects-on-the-past-30-years-after-ussr-fell/>. Acesso em: 14 mai. 2022.

NEWS BEEZER. Se você quer liberdade, você tem que reconhecer a liberdade de outras pessoas. Disponível em: <https://newsbeezer.com/swedeneng/if-you-want-freedom-you-have-to-recognize-the-freedom-of-other-people/>. Acesso em: 14 mai. 2022.