Newton Carlos e a identidade latino-americana no exílio

Somos la primera generación latinoamericana del Brasil. Yo aprendí a ser latinoamericano en Montevideo, en Caracas, en Santiago. El exilio me permitió descubrir América latina.

– Darcy Ribeiro para Ercilla em Exílio: Passaporte da angústia, 1970, p.14.

Neste texto, vou falar sobre o exilado brasileiro Newton Carlos e a identidade latino-americana, presente em suas produções no semanário chileno, Ercilla, durante o período de 1968 a 1973. Esse periódico circulou entre 1933 e 2015, porém o recorte temporal aqui selecionado compreende a primeira etapa do exílio brasileiro e o início da ditadura chilena, quando diversos desterrados latino-americanos partiram para países africanos e europeus porque os projetos das esquerdas da época eram duramente reprimidos por militares da América do Sul.

Newton Carlos é considerado pioneiro do colunismo internacional no Brasil, sobretudo pela forma como retratou a América Latina em suas análises. Jornalista de carreira consolidada, atuou em diversos veículos de comunicação, entre eles o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil e a TV Bandeirantes. Também escreveu alguns livros: A Guerra da América Latina (1965), A conspiração de Kennedy ao Vietnam (1966), Peru: o novo nacionalismo latino-americano (1969), Chile com Allende: para onde vai? (1970) e América Latina: dois pontos (1978). 

Todas essas obras dialogam com os assuntos por ele debatidos no Ercilla. O escritor denunciou as ditaduras militares ocorridas na América Latina, o imperialismo estadunidense e a colonização nos países do Terceiro Mundo; assim ele revelava que se entendia como latino-americano e se solidarizou com os continentes africano e asiático, também vítimas das políticas de exploração cometidas pela Europa e pelos Estados Unidos. As contribuições de Newton Carlos para o impresso refletem o caráter anti-colonial, manifestado em redes intelectuais de seu espaço-tempo.  

No texto, Colonialismo e Poder Negro, o exilado descreveu os processos de colonização solidificados nas Antilhas Francesas e as resistências protagonizadas por descendentes de escravizados nas colônias americanas. Movimentos de emancipação também foram ressaltados em outras de suas produções para a Ercilla. As investigações por mim realizadas indicam que o colunista recebeu fortes influências dos intelectuais Frantz Fanon e Aimé Césaire. Ambos que também questionaram o sistema colonial presente no Terceiro Mundo, bem como o imperialismo estadunidense na América Latina, e esses dois escritores foram citados por Newton Carlos em seus textos.

Resistência às ditaduras militares

O exílio é um fenômeno que impacta física e emocionalmente nas condições de vivência do sujeito desterrado. A nova realidade no país receptor implica em incorporação de novos costumes, formação de grupos de apoio e, consequentemente, transformação de suas identidades. No caso do exílio político da América Latina de meados do século XX, o contato com múltiplas ideias permitiu que os desenraizados construíssem projetos individuais e coletivos na tentativa de continuar a atuação política iniciada no país de origem. Uma das formas de os exilados resistirem às ditaduras era denunciar as violações aos direitos humanos perpetradas pelos militares, atuação que se fazia através dos impressos, jornais, e também contavam com certo apoio do mercado editorial que não estavam alheios ao cenário autoritário.

Provavelmente, a identidade latino-americana, existente nos textos do colunista Newton Carlos, não representava apenas a necessidade de se adequar aos debates desenvolvidos no Ercilla – que abordou temáticas nacionais e internacionais -, mas também sua própria resistência à ditadura militar brasileira. O diálogo com outros intelectuais e impressos permitiu que o desterrado expandisse seus horizontes subjetivos e teóricos. Ao que tudo indica, Newton Carlos enxergou na luta anti-colonial um instrumento de emancipação coletiva e individual.

A queda de Salvador Allende

Ercilla demonstrou apoio à Unidade Popular até 1971, todavia, no ano seguinte, os jornalistas Hernán Millas, colunista, e Emilio Filippi, diretor da revista, se declararam contra o governo de Salvador Allende. Desde então, realizaram-se críticas ao presidente, inclusive o termo “América Latina” foi suplantado do semanário, e Newton Carlos perdeu seu espaço na edição, assim como os demais exilados brasileiros que compunham o corpo editorial desse impresso. À medida que o golpe militar de 11 de setembro de 1973 tomou forma, a temática do exílio desapareceu da Ercilla. Sobre a experiência no Chile, o jornalista afirmou que 

Meu trabalho no exterior mais marcante, o que mais me afetou, tanto politicamente como profissionalmente, foi vivenciar a ascensão e a queda de Salvador Allende. Eu cheguei a ter uma relação pessoal bastante significativa com o presidente Allende.  Foi uma experiência muito forte.                                                                                                                                                                                                                      – Newton Carlos

Os escritos de Newton Carlos mostram sua preocupação em conhecer e reportar para o público leitor do Ercilla os três continentes considerados atrasados em relação à Europa: América, África e Ásia. A sensação de pertencimento ao primeiro e necessidade de reparação histórica para com as populações historicamente oprimidas foram evidentes em sua narrativa, assim como o ideal de que a solidariedade entre os mesmos contribuiria para a emancipação  de povos do Terceiro Mundo. A trajetória de Newton, narrada ainda que brevemente, demonstra como o exílio transformou identidades, possibilitando que exilados conhecessem uma América Latina de efervescência política e sociocultural.

Referências consultadas

REIS, M. Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina. Si, somos latinoamericanos: o papel dos semanários Ercilla e Marcha para a construção do conceito de América Latina no Chile e no Uruguai (1939-1974). USP, 2014, pp.846-859.

ROLLEMBERG, D. Exílio: entre raízes e radares. Editora: Record, 1999.

Fontes

Exemplares do semanário Ercilla correspondentes ao período de 1968 a 1973.

Legenda da foto: O jornalista Newton Carlos – Divulgação/Família