Nosotras e o feminismo latino-americano no exílio

Os exílios latino-americanos da segunda metade do século XX foram marcados por alto teor político devido ao cenário autoritário em que se encontrava o continente americano: à medida que, os processos revolucionários ganharam força, as contrarrevoluções instauraram ditaduras militares que tornaram o desterro prática comum na região. Ao chegar ao país receptor, os/as exilados/as construíram redes sociais e, consequentemente, estabeleceram contatos com novos costumes e teorias; abrindo espaço para a consolidação de rica produção artística e intelectual que expressava ideias de uma América Latina imersa em um ambiente de efervescência política e cultural.

O que eu vou falar neste texto é sobre uma das várias produções de autoria de exiladas latino-americanas: o boletim Nosotras, cujo objetivo era fazer com que mulheres contassem suas experiências e refletissem sobre suas vivências nos espaços que ocupavam, seja no lar ou na militância, e, além disso, incentivou as leitoras a compartilharem seus números com amigas, promovendo uma rede de circulação entre mulheres. Como denunciava a ditadura e a violência de gênero, esse boletim foi construído de forma clandestina e sem grandes recursos financeiros. 

Danda Prado

A fonte foi publicada pelo Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris, fundado pela brasileira Danda Prado e composto por mulheres latinas, sendo parte delas exiladas. O grupo iniciou suas reuniões em 1972 e promoveu debates e projeções de filmes, articulando o impresso em questão. Nosotras teve uma curta circulação, entre 1974 e 1976.

Era confeccionado em edição bilíngue (português-espanhol), cuja distribuição se fazia no Brasil e em outros países da América Latina. Uma das maneiras de distribuí-lo entre as brasileiras era através do envio de exemplares para a fazenda de uma prima de Danda Prado na cidade de Campinas, São Paulo, Brasil. Mulheres diversas corroboraram para sua produção, entre elas, Mariza Figueiredo na edição, Lucia Tosi na impressão e Giovanna Machado, a responsável por estabelecer contatos com as latino-americanas.

Uma rede internacional de mulheres

Nosotras potencializou uma rede internacional de mulheres, divulgando movimentos feministas da América Latina e do mundo e fomentando a luta feminina. Foram divulgadas instituições e ações desenvolvidas por feministas de várias partes do mundo, entre elas: a Acción para la Liberación de la Mujer Peruana, o El Movimiento de Liberación de la Mujer en México*, o Movimento de Libertação de Mulheres (Portugal) e o Ano Internacional da Mulher, organizado pela ONU em 1975, marcado por denúncias e debates sobre as situações enfrentadas por mulheres de diversas partes do globo.

Nosotras defendeu a legalização do aborto, discutiu sobre a sexualidade, o casamento e criticou a exploração feminina em países como Argélia, Cuba, Etiópia, Portugal e Venezuela. Assim como outras redes do exílio – o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris, por exemplo – debateu também a respeito de literatura, cinema e demais assuntos de seu espaço-tempo.

Como sua redação se dava em um dos pólos intelectuais da época (Paris), Nosotras ainda propiciou espaço para que as exiladas tivessem contato com teorias feministas de Simone de Beauvoir e outras autoras que estudaram a temática. Também receberam informações sobre calendários de lutas, técnicas para a criação de grupos feministas e debates característicos das universidades brasileiras. Vale ressaltar que, contava com mulheres acadêmicas, algumas até escreveram teses de doutorado sobre “a mulher”.

Literatura especializada sobre o assunto

Esse boletim foi objeto de estudo de autoras como Cristina Wolf, Elizabeth Cardoso, Joana Pedro, Maira Abreu e Susel Oliveira – grandes estudiosas sobre gênero, aqui destaco a importância destas intelectuais para a consolidação de trabalhos sobre mulheres nas ditaduras do Cone Sul. Essas pesquisadoras reconheceram a originalidade do boletim e sua relevância para os feminismos da década de 1970. Para Susel, é difícil catalogar a fonte em uma corrente feminista específica devido às múltiplas temáticas por ela abordadas. 

Finalmente, é digno de nota que, o fato do jornal-boletim Nosotras ter sido publicado em português e espanhol, reforçou a necessidade das exiladas de estabelecer uma rede de mulheres latino-americanas que não apenas o lessem, mas também, se identificassem com suas experiências. O contato com as francesas fez com que essas sujeitas pensassem o que é “ser mulher” na França, mas também na América Latina, região historicamente subalternizada pelo projeto civilizador posto em prática durante a colonização. Em uma das edições desse impresso, perguntaram se o feminismo só fazia sentido em países industrializados. Ao que tudo indica, acreditavam que não.

* Ação pela Libertação da Mulher Peruana e Movimento pela Libertação da Mulher no México

Referências consultadas

ABREU, Maira. Nosotras: feminismo latino-americano em Paris. Estudos Feministas, Florianópolis, 336, maio-agosto/2013. Disponível em https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2013000200007/25779.

OLIVEIRA, Susel. Mulheres ditaduras e memórias “Não imagine que precise ser triste para ser militante”. Nosotras e a invenção de novos espaços-tempos. Editora Intermeios, São Paulo, FAPESP, pp.152-166, 2013.

SUGESTÃO DE LEITURA

ABREU, Maira. Feminismo no exílio: o Círculo de mulheres Brasileiras em Paris e o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris, Editora Alameda, São Paulo, 2014.