Nas garras da URSS: o caso de Oleksander Serhiyenko

A família de Oleksander e o período entre guerras

Hoje vou falar sobre o caso de uma experiência de guerra. O nome do personagem é Oleksander Serhiyenko. Tanto a sua história como a de sua família marcaram a trajetória de outras pessoas que viveram na Europa durante a II Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945, e a Guerra Fria entre os anos de 1947 e 1991. Em razão disso, muitos fugiram de tragédias anunciadas e se tornaram prisioneiros de outras guerras maiores ainda.

Oleksander Fedorovych Serhiyenko nasceu na cidade de Glushkovskiy em 1935, região fronteiriça entre Ucrânia e Rússia atual, dominada na época pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. De pais professores nacionalistas ucranianos, a mãe Oksana era engenheira química e seu pai, Fedor, era economista e membro do Partido Comunista Ucraniano, banido pelos bolcheviques em 1924.

A URSS prendeu a maioria dos membros do PCU, momento em que seu pai foi encarcerado entre 1924 e 1934. Entretanto, logo depois, para fugir das perseguições, a família de Serhiyenko emigrou para a cidade russa de Tambov, onde permaneceu entre 1936 e 1944. Tambov foi um local marcado pela Segunda Guerra Mundial, e nessa época seu pai foi convocado para o exército e o irmão mais velho de Oleksander foi morto em razão de ataque de uma bomba.

Mais uma vez, fugindo do terror a família mudou-se para Dnipro e depois para Kyiv, capital da Ucrânia, onde moram juntos com a tia avó, Vera, que perdeu o marido e os filhos em decorrência da guerra. Seus pais foram presos em 1947 por tentar mostrar às autoridades soviéticas como as prisões de alguns familiares e amigos eram clandestinas. Por essa razão, Oleksander e sua avó foram expulsos da casa onde moravam.

 

Reviravoltas no caso Oleksander

Em 1951, Oleksander começou a estudar agronomia no Instituto Agrícola de Lviv. Em 1953, ainda estudante quase foi preso por suspeição de envolver-se com atividades contra a URSS. Mas a morte de Joseph Stálin arrefeceu os motivos da sua prisão.

Em 1956, Oleksander foi convocado pela KGB (Comitê de Segurança de Estado, do Governo Soviético) para prestar depoimento, porque um ex-colega alegou que ele estava envolvido com ações antissoviéticas, o que não se pôde ser provado. Porém, isso ocasionou sua expulsão do Instituto de Lviv. Nesse mesmo ano, a sua mãe foi libertada da prisão e juntos decidiram construir uma casa e seu pai faleceu dois anos depois, em 1958.

Passados alguns anos, já em 1963 Oleksander ingressou no Instituto Médico de Kyiv e participou de vários grupos e discussões sobre a cultura e a língua ucraniana. Cabe destacar que a cultura e a língua da Ucrânia, nessa época, foram proibidas de existir pela ação repressiva do Governo Soviético. Em 1966, Oleksander foi preso por cerca de 15 dias por participar de um evento em homenagem ao poeta ucraniano Ivan Frankó; já, no ano seguinte, em 1967, foi expulso do Instituto.

Em 1970, casou-se com Zvenislava, e promoveu leituras do poeta ucraniano Taras Shevchenko chamando a atenção das autoridades soviéticas. Motivo pelo qual teve sua casa e de sua mãe revistada pela KGB que levou vários livros considerados ofensivos ao regime. Discursou no funeral de Alla Ghorska e por isso foi demitido de seu emprego.

Oleksander: nas garras da URSS

Em 1972, Oleksander foi encarcerado, condenado a 7 anos de prisão e 3 anos de exílio, acusado de editar o livro Internacionalismo ou Russificação de Ivan Dziuba, por organizar a União Ucraniana Rural-Trabalhista e traição à pátria que segundo o veredicto “tinha a finalidade a separação da Ucrânia do resto da União Soviética e formação da assim chamada Ucrânia Independente” (HANEIKO, 1963, p. 13-14). A respeito das acusações feitas contra ele, lê-se abaixo:

Prova-correção de 33 páginas de texto do livro Internationalism or Russification? de Ivan Dzyuba (o livro tem 500 páginas). Serhiyenko não conhecia o autor do livro. Ele achou o trabalho interessante e fez anotações para seu próprio uso quando o leu. O tribunal classificou suas marcações como correções editoriais e Serhiyenko foi acusado de cumplicidade na criação de um livro anti-soviético. O tribunal considerou este episódio como o ponto principal da acusação. Declarações orais críticas à “assistência internacional prestada à Tchecoslováquia”; estes não foram confirmados pelo depoimento de testemunhas. Declarações sobre o direito da Ucrânia à autodeterminação.

Ainda, em 1972, Oleksander foi transferido para o campo de trabalhos forçados n° VS-389/36 em Perm na Rússia, onde participou de manifestações contrárias ao tratamento desumano recebido pelos presos. Como resultado, foi confinado na cela sem poder sair durante alguns meses e depois colocado na solitária por 6 meses. E somente no ano seguinte foi condenado a mais 3 anos de prisão e levado em 1974 para a severa prisão Vladimir (Volodymyr) – para presos potencialmente perigosos – que junto a outros prisioneiros políticos fundaram o Grupo Ucraniano de Helsinque – ver artigo sobre a atuação do grupo na comemoração dos seus 35 anos em 2007 e outro caso semelhante.

Em 1977, Oleksander foi levado para uma prisão em Kyiv onde recebeu uma injeção com o vírus da tuberculose, num experimento científico de participação compulsória. Sua mãe, Oksana, e sua esposa Zvenislava, nesse momento, protestaram ativamente pela sua saúde, pois já estava com trombose também e sem tratamento.

Em 1979, como prisioneiro de guerra foi enviado para o exílio no extremo oriente da Rússia. Enquanto isso, sua família foi perseguida, sendo sua mãe presa em hospitais psiquiátricos até, aos 76 anos, ser mandada para o exílio em 1981 junto dele que terminava o cumprimento de sua pena.

Fim do período soviético

Ao fim do período soviético, Oleksander voltou para sua esposa e filhos no mesmo ano, e visitou sua mãe exilada no ano seguinte, que em 1985 foi libertada. No entanto, em 1991 foi preso por cerca de um mês por protestar contra um encarceramento ilegal, sendo solto devido ao Ato de Independência da Ucrânia.

Entre 1990 e 1994, trabalhou no Partido Republicano da Ucrânia – URP, candidatando-se para deputado estadual. Atuou no departamento de cultura da região de Pechersk. Em 1994, foi deputado em Kyiv e membro de diversas comissões e consagrou-se mestre em Direito e Política. Em 1995, dirigiu o Partido Democrata Cristão Ucraniano. Em 2007, recebeu a Ordem de Mérito e em 2010 a Cruz de Ivan Mazepa por sua atuação significativa em relação ao renascimento do patrimônio histórico ucraniano. Faleceu em 2016, em Kyiv, Ucrânia.

Referências consultadas

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE.  Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?do=search&w=fedorovych>. Acesso em: 30 mai. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

UNITED STATES OF AMERICA. Congression Record – Proceedings and Debates of the 91° Congress First Session. Volume 115, part 4. Disponível em: <https://books.google.com.br/books>. Acesso em: 30 mai. 2021.