A história de Oles Berdnyk

Oles Pavlovitch Berdnyk nasceu em novembro de 1926 em uma aldeia rural do Distrito de Kherson. Sua família era humilde, cujo pai era ferreiro e a mãe camponesa. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a servir no Exército Soviético entre 1943 e 1945. Só depois do conflito, conseguiu terminar seus estudos em artes cênicas na Academia de Drama e Teatro Nacional Ivan Franko em Kyiv.  

Em uma reunião do partido político que fazia parte, ocorridas no mesmo Teatro quatro anos depois, Oles demonstrou suas primeiras indignações. Uma delas em relação as denúncias feitas por seus colegas de profissão, consideradas calúnias inventadas, que serviram como argumento para a KGB perseguir pessoas vistas como inocentes. Teria ainda demonstrado revolta contra o governo soviético, uma vez que censurava peças clássicas teatrais. Em uma de suas últimas alegações, Oles proferia a frase seguinte:

“-Stalin é um gênio para alguns, mas um tolo para outros.”

A tentativa de fuga de Oles: condenação dentro da condenação

Oles Berdnyk
Oles Berdnyk

Durante o cumprimento de sua pena, em 1953, foi mais uma vez condenado a mais 10 anos de prisão por tentar escapar duas vezes

Antes mesmo da reunião acabar, sua crítica já havia chegado a KGB. No ano seguinte, em 1950, Oles Berdnyk foi preso acusado de traição, sendo-lhe comutada uma pena de 10 anos de prisão, acrescidos de mais 5 anos de exílio e mais 3 anos sem direitos políticos; totalizando 18 anos de condenação. A pena de restrição à liberdade foi cumprida em duas regiões: parcialmente, no norte da Rússia, e também no Cazaquistão. Durante o cumprimento de sua pena, em 1953, foi mais uma vez, condenado a mais 10 anos de prisão por tentar escapar duas vezes, ação que não obteve êxito. Em 1955, foi perdoado pelo Governo Soviético, alegando arrependimento por seus crimes.

A liberdade, temporária ...

Depois de voltar à sua terra natal, Distrito de Kherson, Oles, iniciou sua carreira literária, ingressando na União Nacional dos Escritores da Ucrânia. Logo, suas aptidões ficaram conhecidas em toda a União Soviética, sendo um referencial na área de ficção científica. Em 1972, já reunia pelo menos 20 obras entre romances e contos; ano também que seu apartamento foi invadido por oficiais da KGB que confiscaram algumas obras e duas máquinas de escrever.

Como protesto, Oles fez greve de fome por duas semanas conseguindo apenas a devolução de suas máquinas de escrever. Os livros do seu acervo jamais foram devolvidos. A partir desse momento, ele foi um dos escritores proibidos de publicar no Regime Soviético. Em 1974 pediu permissão para deixar a URSS, sendo-lhe negada. 

Anos depois, todas as suas publicações foram retiradas das bibliotecas e proibidas de serem disponibilizadas ou compartilhadas, sendo também expulso da União Nacional dos Escritores da Ucrânia. No mesmo ano, ingressou como um dos membros fundadores do Grupo Ucraniano de Helsinque e permaneceu, até 1979, bastante atuante, inclusive, redigindo um documento, pouco conhecido, intitulado “Memorando do Conselho de Iniciativa de Evolução Alternativa” endereçado ao Comitê das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Nesse Memorando se propunha uma nova postura em relação ao relacionamento entre o planeta e os seres humanos. 

O envolvimento no Grupo Helsinque e a segunda prisão de Oles

Mais uma vez, Oles foi preso em março de 1979. Sua atuação marcante no Grupo Ucraniano de Helsinque e suas constantes lutas em prol dos ucranianos lhe renderam nova acusação, por agitação e propaganda antissoviética. Por essa razão, fazia greve de fome. No seu julgamento, algumas de suas obras foram consideradas perigosas para o Regime Soviético ao exaltar o povo ucraniano. Mais 6 anos de prisão e 3 de exílio foram a sua sentença, por ser um reincidente particularmente perigoso. 

No início da década de 1980, tornou-se prisioneiro, sendo convocado a testemunhar contra Mykhailo Horyn (que já escrevi aqui no blog, em outro artigo). Ao recusar a convocatória, como represália, foi transferido para um campo de concentração de regime restrito na região de Vsekhsvyatska, cujo objetivo era “reeduca-lo”.

Oles coagido: a liberdade como moeda de troca

Como moeda de troca para libertar Oles Berdnyk, o Governo Soviético exigiu que ele escrevesse um artigo que seria publicado nos jornais, intitulado “Voltando para casa” em que deveria afirmar que o Grupo Ucraniano de Helsinque era na verdade uma criação da CIA (Agência Central de Inteligência) dos Estados Unidos, para sabotar o regime soviético e ele estava arrependido de ter participado dessa farsa. Após ter sido coagido, o artigo foi publicado, e Oles foi libertado em 1984.

Com o Regime Soviético em declínio no final da década de 80, ele fundou a Frente Noosfera Chave das Estrelas, liderou a associação humanista da República Espiritual da Ucrânia, escreveu diversos artigos e até foi cogitado, em 1991, para ser candidato a presidente, na Ucrânia livre, depois da dissolução da URSS.

A história de Oles releva outro caso, semelhante a vários que já escrevi aqui no blog, de militantes e intelectuais, que lutaram contra a ofensiva na Ucrânia levada a cabo por Stálin e seus partidários. Seus escritos reúnem mais de 50 obras, sendo a maioria delas produzidas durante suas prisões e exílios. Faleceu em março de 2003, em sua casa de verão, nas proximidades de Kyiv.

Referências consultadas

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Berdnyk, Oleksander (Oles) Pavlovych. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/1113844054>. Acesso em: 05 dez. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

MAIDAN MUSEUM. Museu Maidan recebeu objetos da família do escritor de ficção científica Oles Berdnyk (Музей отримав предмети з Майдану від родини фантаста Олеся Бердника).  Disponível em: <https://www.maidanmuseum.org/uk/node/925>. Acesso em: 30 mar. 2022.

UKRINFORM. Plataforma Multimídia de Radiodifusão Estrangeira da Ucrânia (Мультимедійна платформа іномовлення України). Disponível em: <https://www.ukrinform.ua/rubric-society/2591570-oles-berdnik-zoranij-zuravel.html>. Acesso em: 30 mar. 2022.