Stepan Virun

Stepan Virun é um sujeito histórico bastante importante quando se trata da atuação dos dissidentes políticos ucranianos durante o período soviético. Entretanto, a sua biografia é pouco conhecida se comparada com a de outros personagens, e há poucas informações disponíveis sobre ele. Como tentativa de resolver essa questão, entrei em contato há mais de um ano com jornais e museus ucranianos e canadenses (onde existe muitos descendentes de ucranianos) solicitando alguma uma foto dele, mas não obtive sucesso.

Há alguns dados do personagem que menciono a seguir. Sabe-se que ele nasceu em 1932, na aldeia rural de Stemilnoye, próxima da cidade de Lviv. Seus pais eram camponeses. Sobre a infância de Stepan Virun, não há registros. Anos depois, concluiu seus estudos superiores na área jurídica na Escola Superior do Partido Comunista da União Soviética em 1955. Foi casado, trabalhador e membro ativo do Komsomol.

Também foi membro fundador, junto de Levko Lukianenko e Ivan Kandyba, do Sindicato dos Trabalhadores e Camponeses Ucranianos. Essa associação é considerada o primeiro grupo partidário ucraniano clandestino que atuou no pós Segunda Guerra Mundial, com objetivos pacíficos e dentro da legalidade jurídica soviética de defender os direitos nacionais, culturais e civis da população ucraniana e ainda, e buscar emancipar a Ucrânia da participação na URSS.

A primeira reunião desse sindicato aconteceu no apartamento de Kandyba em 6 de novembro de 1960, e contou com Stepan Virun, Levko Lukianenko, Vasyl Lutskiv e Mekola Vashchuk, além do anfitrião. A pauta foi a discussão de um projeto político bastante radical para a época, e do contexto, em especial no que tangia à separação da Ucrânia do restante da União Soviética, da implantação de um referendo e posteriormente de uma democracia.

Apesar do movimento buscar a legalidade nas suas ações, amparados na própria Constituição Soviética, que assim permitia pelo menos no papel, no ano seguinte, em 1961, todos os já 10 membros foram presos entre os dias 20 e 21 de janeiro de 1961 por serem considerados inimigos do Regime Soviético. A próxima reunião do grupo estava marcada para o dia 22 do mesmo mês, e Mekola Vashchuk, que se apresentava até então como estudante, era policial da KGB disfarçado que delatou o grupo ucraniano clandestino.

Com julgamentos clandestinos para todos os membros capturados, Stepan Virun tentou se defender enquanto aguardava a pena que lhe foi imputada, citando a própria Constituição Soviética Ucraniana (artigo 17), a qual dizia que a qualquer momento a Ucrânia poderia sair da URSS legalmente, alegando que:

“O direito de uma república sair da União Soviética não pode ser delito […] assim como a lei soviética não pode ser, ao mesmo tempo, antissoviética.” (HANEIKO, p. 14, 1974).

Porém, todos os participantes do Sindicato dos Trabalhadores e Camponeses Ucranianos, fato conhecido como “O caso dos juristas”, foram condenados de acordo com o artigo 56 do Código Penal da URSS, acusados de traição, rebelião armada e recrutamento ativo para o exército insurgente ucraniano. Stepan Virun recebeu o veredito de 11 anos de trabalhos forçados em campos de concentração na Mordóvia (Rússia).

Em 1964, enquanto estava cumprindo sua pena num campo de concentração na cidade de Taishet, na Rússia, foi esfaqueado por outro encarcerado, Lashchuk, que também era um agente da KGB. Segundo outros prisioneiros, o objetivo do ataque não era apenas ferir Stepan Virun, mas matá-lo; entretanto, isso não aconteceu. Depois de algumas semanas hospitalizado, o personagem recuperou sua saúde.

Virun foi libertado do campo de concentração em 1972, segundo um jornal ucraniano datado de 1983 e editado pelos imigrantes que viviam no Canadá. Poucas informações sobre ele existiam na época e não era certeza de que realmente havia conquistado sua liberdade. Não há registros de sua vida posterior a este momento e nem sobre sua morte. Duvida-se, inclusive, que talvez tenha sido assassinado tanto nos campos de concentração quanto anos depois.

A trajetória do personagem demonstra um desafio no que se refere às fontes históricas e dados da época. Ela revela seu envolvimento no grupo clandestino ucraniano e sua atuação se direcionava para defesa da Ucrânia frente à URSS, bem como indica outros sujeitos históricos da KGB que estiveram disfarçados como agentes em grupos ucranianos, aspecto, aliás, comum à época, mas que não deve ser visto como normal. 

Quer saber mais sobre prisioneiros e exilados ucranianos? Leia outros textos que já publiquei aqui no Blog.

Referências consultadas

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Sindicato de Trabalhadores e Camponeses Ucranianos (URSS). Disponível em: <http://museum.khpg.org/1116510484>. Acesso em: 05 dez. 2021.

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Ukrainian Workers’ and Peasants’ Union. Disponível em: <http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CU%5CK%5CUkrainianWorkershDAandPeasantshDAUnion.htm>. Acesso em: 05 dez. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

МАЙСТРЕНКО, Іван. Українські юристи під судом КҐБ. Мюнхен: Сучасність, 1968. / MAYSTRENKO, Ivan. Advogados ucranianos sob julgamento da KGB. Munique: Modernidade, 1968.

THE URKAINIAN WEEKLY. Dissident profile Stepan Virun: jurists case defendant. Disponível em: <http://www.ukrweekly.com/archive/pdf2/1983/The_Ukrainian_Weekly_1983-34.pdf>. Acesso em: 07 dez. 2021.

UNITED STATES OF AMERICA. USSR Labor Camps. Washington: US Government Printing Office, 1978.