Ter inteligência na Ucrânia Soviética é uma desgraça: o caso de Viatcheslav Tchornovil

Pois não há castigo pior do que as torturas de uma consciência suja, nem juiz mais poderoso do que a verdade”.

Nascimento e mudanças

Em uma família de pais professores, perseguidos pelo regime stalinista, Viatcheslav Tchornovil nasceu em 1937 em Yerky, atual distrito de Kyiv, Ucrânia. Estudou Jornalismo na Universidade de Kyiv, graduando-se com distinção em 1960. Até 1964, atuou na imprensa local (jornais e televisão), e depois mudou-se para Vyschhorod com o intuito de trabalhar na Estação Hidrelétrica de Kyiv, onde matriculou-se numa Pós-Graduação do Instituto de Formação de Professores de Kyiv. Mas não foi aceito por motivos políticos.

Durante a estreia do filme “Sombras dos antepassados esquecidos”, em 1965, Tchornovil protestou com outros ativistas contra a prisão de intelectuais ucranianos, resultando na sua demissão na referida Estação Hidrelétrica. Como consequência, teve seu apartamento vistoriado, momento em que os membros da KGB russa retiraram 190 livros profissionais – os mais caros e raros jamais foram devolvidos – de sua estante. Concomitantemente recusou sua convocação para ser testemunha em um famoso processo clandestino (Irmãos Horyn), cumprindo 3 meses de trabalhos forçados.

Em 1966, já em evidência para os olhos do governo soviético, documentou várias prisões ilegais de ucranianos e a violação dos direitos humanos que foram registradas no livro “Desgraça por causa da inteligência” e no ensaio “Julgamento justo ou volta ao terror?”. Sobre isso escreveu Haneiko: “Quem é lançado hoje atrás das grades? Estão julgando a juventude que cresceu sob o regime soviético, que foi educada na escola soviética, no ensino superior e na organização juvenil soviéticos. Julgam como nacionalistas burgueses pessoas que não conheceram o regime burguês… A quem interessa tudo isso? (HANEIKO, 1974, p.16-17).

Acusações e julgamentos

Após esses acontecimentos, Tchornovil foi acusado de difamação e ler livros antissoviéticos. Em seu julgamento, protestou contra o cinismo, à falsificação de documentos, às anotações das atas, à falta de ética, à desumanidade do tribunal e seu membros que estavam mais preocupados em condená-lo do que obter a verdade dos fatos – para um bom profissional do jornalismo, esse comportamento de Tchornovil era de se esperar. Além disso, ele afirmou que os intelectuais ucranianos não se julgavam culpados, pois combatiam os resíduos stalinistas dentro da política nacional (da URSS), afirmando ” – Pois não há castigo pior do que as torturas de uma consciência suja, nem juízo mais poderoso do que a verdade” (HANEIKO, 1974, p.34).

Vários intelectuais participaram de seu julgamento, entre eles, Alla Ghorska, que posteriormente escreveu uma carta pública lhe defendendo – e protestaram contra à metodologia do tribunal que sob o ponto de vista constitucional soviético era ilegal, bem como contra à pena imposta a Tchornovil, condenado a 3 anos em uma prisão de segurança máxima. Tchornovil, por isso, descreveu que foi julgado pelo “crime de opinião”, mas a imprensa soviética publicou que foi por “calúnias contra o regime”. Depois de um ano e meio, em 1967, ele foi anistiado e afirmou publicamente que “Ter inteligência na Ucrânia Soviética é uma desgraça” (HANEIKO, 1974, p. 80), frase que dá título a este artigo.

Atuações, exílio e novas prisões

Anos depois, seguiu para o exílio, entre 1969 e 1972, e casou-se por lá, teve vários empregos e criou uma revista chamada Arauto da Ucrânia. Outra infelicidade lhe acometeu, em 1972, quando foi preso novamente por participar nos movimentos de independência da Ucrânia e por ter feito publicações nessa revista. Foi condenado a 7 anos de prisãonos campos da Mordóvia na Rússia para prisioneiros políticos, e 5 anos de exílio. Em 1975, renunciou sua cidadania soviética no intuito de se mudar para o Canadá, o que não lhe fora permitido.  Em 1976, juntou-se ao Grupo Ucraniano de Helsinque; em 1978 foi mandado para o exílio em uma fazenda estatal (kolkhozes) na Yakutia, que fica no Extremo Oriente Russo, e sua chegada nesse local se efetivou em uma viagem cuja locomoção variou de trem e de a pé por milhares de quilômetros. Como se não bastasse, Tchornovil foi preso novamente em 1981, acusado de tentativa de estupro, e sendo condenado a mais 5 anos de prisão. Protestou, fez greve de fome e foi libertado em 1983.

Articulação política e honrarias

Sua vida política articula-se no final dos anos 1980 ao entrar para o movimento nacional ucraniano, sendo o primeiro líder do Movimento Popular da Ucrânia conhecido como Rukh. Durante a década seguinte, 1990, concorreu à presidência da Ucrânia, mas não venceu as eleições em 1991.

Posteriormente, foi eleito como deputado estadual para o Verkhovna Rada (parlamento) entre 1994 e 1998, e demais cargos como membro da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, editor chefe do jornal Chas (Tempo), presidente da Comissão Permanente de Assuntos Culturais e Espirituais da Rada – responsável pela preservação do patrimônio histórico e cultural da Ucrânia – e chefiou ainda a Fundação Internacional de Imprensa Vasyl Symonenko.

Ele morreu em março de 1999, em um suspeito suspeito acidente de carro, pois era considerado o principal candidato que faria oposição ao presidente vigente e que se colocava novamente como candidato. Devido seus registros de prisões clandestinas de ucranianos, a revista Time lhe concedeu o prêmio Nicholas Tomalin em 1975, recebeu a Ordem de Yaroslav, o Sábio e o prêmio Taras Shevchenko, em 2003 o Banco Nacional da Ucrânia emitiu uma moeda em sua homenagem, em 2006 o presidente do país reabriu as investigações da morte dele e os resultados preliminares indicaram assassinato e não acidente, em 2009 foi criado um selo comemorativo a Viatcheslav Tchornovil. 

Referências consultadas

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.

KHARKIV HUMAN RIGHTS PROTECTION GROUP. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?id=1114001517>. Acesso em: 06 mai. 2021.

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Chornovil, Viacheslav. Disponível em: <http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp>  linkpath=pages%5CC%5CH%5CChornovilViacheslav.htm>. Acesso em: 07 mai. 2021.