Militar exilado no Brasil: a trajetória de Sá da Bandeira

… “Desejo que o meu corpo fique coberto com uma simples campa rasa.” [...] “Quero que junto da minha sepultura seja plantada uma árvore, mas não cypreste, sendo por exemplo uma Nogueira.” … Lisboa, 24 de maio de 1872

In: Luz Soriano, Vida do Marquez (...), vol. 11, p. 476

 

Capa dos escritos do personagem, recolhidos pelo historiador José Tengarrinha. O Diário de Sá da Bandeira registra fatos históricos de Portugal e Brasil entre 1826 e 1832. 


QUEM FOI SÁ DA BANDEIRA?

Bernardo Sá Nogueira de Figueiredo nasceu em 26 de setembro de 1795, em Santarém, cidade situada na província do Ribatejo, Portugal. Filho de D. Francisca Xavier de Sá Mendonça Cabral da Cunha Godolfim e Faustino José Lopes de Figueiredo. Teve quatorze irmãos. 

 

Foi militar, político e estadista ocupando várias pastas ministeriais

 

Foi ministro da Marinha e do Reino; governador de Peniche; ministro da Fazenda e dos Negócios Estrangeiros, da Guerra e de Obras Públicas; e presidiu o Conselho Ultramarino, criado em 1851. Agraciado com os títulos nobiliárquicos de 1º Barão (1833), 1º Visconde (1834) e 1º Marquês de Sá da Bandeira (1864).

Acompanhar sua trajetória permite compreender o processo de implantação e consolidação do liberalismo em Portugal. 

Com 14 anos de idade, Sá da Bandeira ingressou na carreira militar, no regimento de cavalaria, nº. 11, em Queluz, Portugal. Também se comprometeu com a Guerra Peninsular entre 1807 e 1814 e a Revolução Liberal de 1820.

A partir daí, participou de diversas batalhas até o fim das guerras da Península. Em outubro de 1815, recebeu licença militar e [FORMAÇÃO INTELECTUAL] se dedicou aos estudos matemáticos na Academia Real da Marinha, depois frequentou a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho e a Escola do Exército. Além disso, cursou Matemática e Filosofia da Universidade de Coimbra entre 1818 e 1820.

Antes do início da Revolução liberal e constitucionalista de 1820, em Portugal, o alferes foi promovido a capitão, assumindo o comando da primeira campanha do seu regimento em julho de 1820. Em 15 de setembro do mesmo ano, desenvolveu ativa participação ao lado do movimento liberal, em Lisboa, e em apoio ao de 24 de agosto no Porto.

Com a proclamação das instituições liberais em Nápoles, Itália, solicitou licença ao governo para servir e defender a causa italiana. Não obtendo a licença, a sua autorização para estudar em Paris foi concedida. Ali, Sá da Bandeira fez vários cursos na Universidade, no Museu de História Natural e da Conservatória das Artes e Ofícios.

LUTOU CONTRA O MIGUELISMO

O seu retorno da França para Lisboa se deu em maio de 1823, momento em que  [MIGUELISMOcombateu a contrarrevolução da Vila-Francada, ao se engajar no regimento nº. 18 de infantaria. Ainda em 1823, prosseguiu com seus estudos em Paris fazendo viagens à Bélgica e à Suíça. Foi promovido da arma de cavalaria em 1825 para a de engenharia e, com sua nova carreira, iniciou estudos sobre estradas, obras hidráulicas, pontes etc, na Grã-Bretanha, em Londres.

De Londres para Portugal, em 1826, e já integrante do Estado Maio de Saldanha, Sá da Bandeira combateu os miguelistas contrários à  Carta constitucional de 1826 outorgada por D. Pedro IV, em Portugal, designação portuguesa de D. Pedro I do Brasil. No ano seguinte, Sá da Bandeira destacou-se na Revolução do Porto de 1828 contra a instalação do governo de D. Miguel.

EXILADO NA EUROPA E NO BRASIL

Essa Revolução foi liderada pelo Exército constitucional, reprimida pelos miguelistas, o que originou o exílio político de milhares de pessoas. Sá da Bandeira seguiu para o exílio [EXÍLIO POLÍTICO] com o Exército liberal, com passagem na Galiza, Corunha, Portsmouth, Londres, Falmouth, Plymouth. Ali, o exilado fez reunião com o marquês de Palmela, depois com o visconde de Itabaiana, ministro plenipotenciário do Brasil, para discutir e buscar um destino aos exilados portugueses que se encontravam em Londres, Inglaterra.

Após permanecer alguns meses em Londres, em 08 de setembro de 1828, Sá da Bendeira destinou-se da Inglaterra para o Rio de Janeiro no paquete The Marchioness of Queensberry, desembarcando na província de Pernambuco, em 27 de outubro do mesmo ano. Chegou a Bahia em 01 de novembro e ao Rio de Janeiro em 10 do mesmo mês, registrando sua estadia no Império [EXILADO NO BRASIL] por cerca de quatro meses.

Nesse período no Brasil, Sá da Bandeira remetia cartas para D. Pedro I, sendo algumas delas entregues ao Imperador. Nessas cartas, o exilado posicionou sobre a escravidão, dizendo que era um “cranco” que corroía o Brasil. Em fevereiro de 1829, Sá da Bandeira emigrou para a Inglaterra na fragata Isabel e cumpriu períodos de exílio na Europa.

Na guerra civil contra os miguelistas, entre 1832 e 1834, D. Pedro I e Sá da Bandeira estiveram muito próximos. O exilado foi um grande estrategista não só nesse momento, mas mesmo quando residiu no Rio em 1829, advertindo o Imperador sobre os meios que julgava necessários para pôr fim ao governo de D. Miguel. Ao fim da guerra, em 1834, D. Pedro nomeou Sá da Bandeira como par do Reino, sendo suas ações voltadas contra os miguelistas no Algarve e Alentejo, Faro.

São muitos os escritos sobre a vida, a trajetória e as atuações de Bernardo Sá Nogueira de Figueiredo. As produções são datadas desde o ano da sua morte, em 24 de maio de 1872, como se lê na epígrafe deste texto, na qual ele disse sobre a árvore nogueira, repetida ao seu sobrenome. A citação é da obra escrita pelo historiador Luz Soriano, nomeado por Sá da Bandeira para cumprir função de escritor na secretaria da Marinha, após a guerra civil.

Escrevi, aqui, momentos-chave da trajetória de Sá da Bandeira que estão dentro do recorte da minha pesquisa, de 1820 a 1840, por isso, não destaquei os anos seguintes de sua atuação em Portugal.

Referência consultada

TENGARRINHA, José. Diário da Guerra Civil (1826-1832). Recolha, posfácio e notas. Lisboa: Coleção Seara Nova, S. A. R. L, 1976.

SORIANO, Simão José da Luz. Vida do Marquez de Sá da Bandeira: Reminiscencia
de alguns dos successos mais notáveis que durante ella tiveram logar em Portugal. 
Lisboa,
Typographia da Viúva Sousa Neves, 1887.

RAMOS, Paulo Jorge Pontes. Simão José da Luz Soriano. De Liberal Inflamado a Homem Conformado. Orientador: Maria Antonieta da Conceição Cruz. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Letras do Porto, Porto, 2011.