Valentyn Moroz: historiador e prisioneiro político

Quem foi Valentyn Moroz? Breves dados biográficos

Nesse artigo, falarei de Valentym Moroz. Ele foi um historiador ucraniano de origem campesina que foi preso duas vezes pelo regime soviético por defender e expressar sua nacionalidade. Vamos conhecê-lo melhor?

Valentyn Moroz nasceu em uma família de camponeses ucranianos em 1936, na vila rural de Kholokiv, região da Volynya. Graduou-se em História, em 1958, na Universidade de Lviv. Fez doutorado, pesquisando sobre a história do movimento nacionalista ucraniano no século XX. Nesse período, lecionou em escolas rurais e no ensino superior.

Em 1965, ele foi acusado formalmente por agitação e propaganda antissoviética (Artigo 62 do Código Penal Soviético na Ucrânia). No entanto, sabe-se que os verdadeiros motivos da acusação dizem respeito ao fato de que era considerado um nacional burguês, pois afirmava que a Ucrânia não deveria fazer parte da URSS. Valentyn Moroz protestava contra o processo de russificação da cultura ucraniana, e ainda era suspeito de facilitar a circulação de materiais censurados (samizdat/samydav – sobre esses materiais, verpelo regime soviético.

Além disso, nesse mesmo ano, foi preso e condenado a 4 anos de trabalhos forçados em um campo de prisioneiros (n° ZhKh-385-17) na Mordóvia. Ali, escreveu o Relatório da Reserva de Béria (também conhecido como Da Reserva Animal Segundo os Moldes da Béria (HANEIKO, 1974)), que antes de ser contrabandeado para além dos muros da prisão, ele mesmo enviou ao Supremo Conselho da URSS para criticar o sistema soviético e seu despotismo com o objetivo de buscar a verdade e a justiça.

Valentyn também participou, nesse campo de prisioneiros, de manifestações contrárias às condições de vida, por causa disso, foi condenado a mais 3 anos na prisão Vladimir; local para presos potencialmente perigosos ao regime. Porém, foi libertado, em 1969, quando sua pena inicial se encerrava. A partir desse momento, os meses que se seguiram ao ano de 1969, foram bastante produtivos. Então, escreveu ensaios que lhe deram ainda mais popularidade. Entre seus trabalhos, destaca-se Em meio à neveCrônica de Resistência, Moisés e Dathan.

A segunda prisão do historiador

Em 1970, o historiador Valentyn foi preso novamente e julgado por um tribunal ilegal segundo a Constituição Soviética, como ocorreu na sua primeira prisão. Mais uma vez, a acusação que lhe recaía era sob a desobediência ao Artigo 62. Seu julgamento ocorreu com as portas fechadas e tanto Valentyn quanto suas testemunhas, entre elas, Viatcheslaw Tchornovilque já dediquei um artigo aqui no blog – foram obrigadas a prestar depoimento fora do tribunal, permanecendo caladas em protesto contra a ilegalidade.

Desse julgamento, o veredito foi uma pena de prisão por 6 anos, seguida de 3 anos de trabalhos forçados, em regime especial (mais severo), e 5 anos de exílio. A pena de cárcere foi cumprida na prisão Vladimir, e um dos companheiros de cela de Valentyn Moroz, em 1974, o esfaqueou no estômago. Devido ao incidente sua esposa, Raisa, protestou e ele foi realocado numa cela solitária, onde esteve preso por 2 anos.

Os 3 anos de trabalhos forçados foram cumpridos por Valentyn na Mordóvia. Ali, ele fez greves de fome e manifestações de protesto junto com outros presos pelas condições desumanas a que estavam submetidos. Foi nesse campo que ele desenvolveu uma postura antissemita e, por isso, algumas de suas ações foram consideradas intoleráveis até por alguns colegas de cárcere. Nessa prisão, um dos oficiais dizia para Valentyn que:

Infelizmente não podemos dar uma espiada para ver o que há dentro da sua cabeça. Se isto fosse possível, e também tirar de lá tudo o que o impede de ser um cidadão soviético normal, não haveria necessidade para tantas palavras” (MOROZ citado por HANEIKO, 1974, p. 72).

Podemos sintetizar a clara oposição de Valentyn ao processo de russificação na Ucrância com suas próprias palavras. Durante o cumprimento de sua segunda prisão, ele afirmava que “A nação significa a síntese de todos os valores espirituais de um ser humano” (HANEIKO, 1974, p. 65) e “[…] eu não tenho complexos de inferioridade diante de um russo… Mas você não pode amar a Rússia, pois você olha para ela de baixo para cima” (HANEIKO, 1974, p. 66).

Liberdade como moeda de troca

Em 1979, sem o consentimento dele e junto de outros prisioneiros políticos, Valentyn Moroz foi trocado por 2 espiões soviéticos, presos nos EUA, e, com isso, foi libertado. É preciso destacar que após a liberdade, contudo, seu nacionalismo radical e comportamento excêntrico fizeram com que seus apoiadores fossem se distanciando dele com o passar dos anos.

Durante a década de 1980, Valentyn viveu nos EUA e no Canadá, lecionou na Universidade de Harvard e publicou a revista canadense Anabasis. Já nos anos 1990, voltou à Lviv para dar aulas de História na Universidade de Lviv. Publicou mais algumas obras, mas que não tiveram impacto como as primeiras. Seu falecimento ocorreu em 2019.

Com isso, procurei falar sobre parte da trajetória desse personagem de origem campesina e que ao longo de sua vida se tornou um historiador. Valentyn Moroz passou anos como prisioneio por ter contribuido com agitações políticas na época em que a Ucrânia lutava contra o processo de russificação. Após anos, ele imigrou para os Estados Unidos, onde deu aulas de História e ao retornar para a Ucrânia prosseguiu na área, sendo além de professor, também autor de diversos ensaios e livros.

Referências consultadas

CHRONICLE OS CURRENS EVENTS. Disponível em: <https://chronicle-of-current-events.com/2021/01/22/valentyn-moroz-continues-his-hunger-strike-december-1974-33-9/>. Acesso em: 08 jun. 2021.

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Valentyn Yakovych Moroz. Disponível em: <http://museum.khpg.org/en/index.php?id=1113917733>. Acesso em: 08 jun. 2021.

ENCICLOPEDIA OF UKRAINE. Valentyn Moroz. Disponível em: < http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CM%5CO%5CMorozValentyn.htm>. Acesso em: 08 jun. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.