Vasyl Stus: entre poesias e prisões

Neste texto, vou falar sobre Vasyl Stus – imagem acima, à esquerda -, conhecido por ser poeta, tradutor, crítico literário, jornalista e membro ativo do movimento dissidente ucraniano contra o Regime Soviético. Além das áreas de atuação, ele é conhecido pela sua bravura por não se curvar perante a URSS e a KGB em meados do século XX.

Vasyl Semenovych Stus nasceu no mês de janeiro de 1938, em Rakhnivka, na Ucrânia Soviética. Seus pais eram camponeses, e tão logo ele nasceu, fugiram das coletivizações forçadas das fazendas para a cidade. Estudou no Instituto Pedagógico de Donetsk, e durante os anos de 1953 a 1963 escreveu suas primeiras poesias, publicando-as em revistas como a Dnipro e a Zmina. O escritor também serviu ao exército por dois anos e trabalhou como editor de revista e no Arquivo de História do Estado da Ucrânia.

Em 1964, já formado e inserido no mercado como editor, Vasyl ingressou no doutorado no Instituto de Literatura da Academia de Ciências da Ucrânia Soviética. No ano seguinte, casou-se com Valentyna Popeliukh, e foi expulso por se manifestar publicamente contrário às prisões secretas e aos julgamentos clandestinos que se tornavam cada vez mais frequentes contra os ucranianos que mantinham seus laços étnicos.

Vasyl: o primeiro e o segundo cárceres

A década de 1970 constituiu as duas prisões de Vasyl. Em 1972, foi preso e condenado a 5 anos de trabalhos forçados num campo de concentração de regime restrito (para criminosos potencialmente perigosos para o Regime Soviético) na Mordóvia (Rússia), acrescidos de mais 3 anos de exílio em Magadan, situada no extremo oriente soviético.

Stus, Vasyl. Créditos: por Vitaliy Gedz

Seu julgamento, perante à lei soviética, era clandestino – detalhes sobre o julgamento – e as acusações eram de “distribuição de ideias falsas e prejudiciais à ordem soviética”. Durante o exílio, conheceu o Grupo Ucraniano de Helsinque. Ainda exilado, decidiu fazer parte do grupo, e em 1979 já havia cumprido todas as suas penas que lhes foram impostas.

Livre, mas na condição de inimigo declarado pelo Regime Soviético, foi perseguido e colocado sob vigilância administrativa na capital Kyiv. Como não conseguiu emprego na sua área, trabalhou como fundidor. Em 1980, foi preso novamente e agora sentenciado a mais 10 anos de trabalhos forçados no campo de concentração de regime restrito em Perm (campo 389/36-1, Rússia) e 5 anos de exílio.

Mesmo preso, escreveu e traduziu mais de 600 textos, todos confiscados e destruídos pela KGB. Entretanto, muitos dos seus textos conseguiram escapar das mãos da censura do governo soviético e puderam ser publicados no Ocidente, como a coleção de poesias intitulada Árvores de Inverno (1970) e Uma vela no espelho (1977). Em meados da década seguinte, em 1985, Vasyl foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura que aconteceria em 1986.

A morte de Vasyl

Pouco tempos antes do prêmio nobel, como Vasyl Stus tinha problemas cardíacos e uma úlcera no estômago, sua saúde deteriorava a cada dia, que aliadas à exaustão física do cumprimento de sua pena e a privação de visitas familiares, levando a sua morte, no decorrer de setembro de 1985. Inicialmente, Vasyl Stus foi enterrado em Perm. Sua família, depois de repetidos pedidos e recusas por parte do governo soviético, conseguiu permissão para enviar seu corpo para Kyiv, capital da Ucrânia, para enterrá-lo em sua pátria. Em 19 de novembro de 1989, aproximadamente 30 mil pessoas participaram do cortejo de Vasyl Stus, demonstrando estima por ele e como uma forma de se manifestarem contrários aos horrores do Regime Soviético.

Vasyl e seu legado póstumo

Como as obras – veja reportagem atual sobre as poesias do personagem – de Vasyl Stus foram proibidas durante a vigência da URSS, tão logo ela estava se dissolvendo emergiram as primeiras publicações: Palimpsests (1986), O retorno (1990), O caminho da dor (1990).

Em 1989, foi criado o Prêmio Vasyl Stus que é conferido as personalidades ucranianas que se destacam pelo talento e coragem; em 1993, ele recebeu o Prêmio Estadual Taras Shevchenko de Literatura em Lviv; em 2005, foi condecorado com o título de Herói da Ucrânia – veja o decreto de condecoração – , a mais alta honraria no país, pelo presidente Yushchenko; em 2008, o Banco Nacional da Ucrânia emitiu uma moeda comemorativa e um selo em sua memória.

Atualmente, existem duas obras de destaque sobre a trajetória de Vasyl Stus, Stus (2020) escrita por Alexander Korotko, e Vasyl Stus: Life in Creativity (2021) redigida por seu filho, Dmytro Stus. É possível visitar uma exposição permanente – coleção Vasyl Stus – sobre ele em Kyiv, repleta de escritos, poemas, fotos e documentos que foram reunidos por seus amigos, dissidentes e familiares.

Referências consultadas

A CHRONICLE OF CURRENT EVENTS. The death of Vasyl Stus (1938-1985). Disponível em: < https://chronicle-of-current-events.com/2021/01/03/the-death-of-vasyl-stus/>. Acesso em: 11 dez. 2021.

DISSIDENT MOVEMENT IN UKRAINE. Stus, Vasyl Semenovytch. Disponível em: < http://museum.khpg.org/en/1114000264>. Acesso em: 11 dez. 2021.

ENCYCLOPEDIA OF UKRAINE. Stus, Vasyl. Disponível em: <http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CS%5CT%5CStusVasyl.htm>. Acesso em: 11 dez. 2021.

HANEIKO, Valdemiro. Em defesa de uma cultura. Rio de Janeiro: Cobrag, 1974.