Vuelvo para vivir (…)

“Vuelvo, amor vuelvo
A saciar mi sed de ti
Vuelvo, vida vuelvo
A vivir en ti pais (…)”

Hoje falarei sobre a canção Vuelvo para vivir do grupo musical Illapu. A letra da canção fala sobre o retorno do exílio e suas implicações que atravessam aspectos subjetivos e físicos do desterrado. Vuelvo para vivir é um símbolo do exílio chileno e acompanha a trajetória pessoal e profissional dos membros do Illapu.

O Grupo Musical Illapu

Illapu é um termo originário do quechua e significa “raio” em português. A banda escolheu o nome com o objetivo de resgatar as raízes ancestrais andinas e incorporá-las em suas músicas. O conjunto faz uso de instrumentos musicais de distintas origens, alguns exemplos são o cuatro venezuelano, o charango boliviano e o cajón peruano. Para saber mais sobre a banda, acesse aqui.

Illapu canta a la vida, el amor, la justicia, la preservación de las fuentes culturales de América, de las contradicciones hombre naturaleza y las tensiones creadas por los procesos de modernidad. La mayoría de sus composiciones son escritas por sus miembros y también se nutren de la lírica de grandes poetas tales como Pablo Neruda, Mario Benedetti, Roque Dalton … (Site oficial)
Tradução: Illapu canta a vida, o amor, a justiça, a preservação das fontes culturais da América, das contradições homem-natureza e das tensões criadas pelos processos da modernidade. A maioria de suas composições são escritas por seus membros e também são nutridas pelas letras de grandes poetas como Pablo Neruda, Mario Benedetti, Roque Dalton

A banda se propõe a valorizar as múltiplas culturas dos povos que habitam a América Latina através de seu nome, letras, instrumentos musicais e inspirações para o desenvolvimento de seu trabalho. Os poetas Pablo Neruda, Mario Benedetti e Roque Dalton têm origens que correspondem ao Chile, Uruguai e El Salvador, respectivamente. Fato que evidencia o quanto as influências de Illapu abrangem conhecimentos e costumes de distintos países latino-americanos.

O grupo musical foi criado em 1971 na cidade de Antofagasta, Chile, pelos irmãos Jaime, Roberto, Andrés e José Miguel Márquez e o primo Osvaldo Torres. Nesse momento, o país era governado pelo marxista Salvador Allende e contava com um grande setor da classe artística que apoiava o seu projeto político e o via como instrumento de promoção da justiça social. Dessa forma, música e política eram áreas articuladas, cabendo a classe artística se juntar aos trabalhadores na luta por emancipação social e econômica.

Illapu recebeu influências da Nova Canção Chilena e dos povos indígenas de Abya Yala, termo em Kuna que significa terra madura, sinônimo de América. A Nova Canção foi um movimento artístico que buscou a valorização da música folclórica da América Latina através da incorporação de seus ritmos e instrumentos. Illapu aderiu à ideia e uniu as raízes andinas advindas de seu nome com o rock, o jazz, a música clássica e afro-caribenha.

Illapu e o exílio

Ao longo de sua trajetória, Illapu lançou cerca de 20 discos oficiais e algumas reedições. Vuelvo amor … Vuelvo vida de 1991 é o álbum que abrange a canção Vuelvo para Vivir que, segundo o site da banda, é a quarta mais ouvida por seu público. A obra musical consiste no primeiro trabalho em estúdio do conjunto após o retorno do exílio de seus integrantes em 1988. O disco engloba o desterro chileno, o fim da ditadura militar e o processo de redemocratização.

Durante o governo militar, o ditador Augusto Pinochet e seus apoiadores perseguiram artistas engajados aos temas políticos e sociais chilenos. Foi proibido que assuntos contra os militares fossem retratados em meios de comunicação nacionais, cabendo punição aos que não obedecessem a norma.

Em 1981, após se apresentar em Paris e embarcar para voltar ao Chile, o grupo recebeu a notícia de que não poderia descer do avião e estava proibido de aterrissar em território nacional, pois foi acusado de exercer “atividades marxistas e de desprestígio do país no estrangeiro”.

Os seus integrantes se encontravam entre os artistas censurados pela ditadura e assim como muitos deles continuaram com o trabalho no exterior. A promessa do retorno ao lugar de origem sempre esteve presente, algo comum de acontecer nas etapas psicológicas do exílio. Para saber sobre as etapas psicológicas do exílio, acesse o blog escrito por mim.

Os membros do Illapu retornaram ao Chile 15 dias após a instauração do Decreto N°203 do Ministério do Interior que promoveu a revogação das proibições de ingresso em território nacional de exiladas/os políticas/os. A partir desse momento, teve início uma importante etapa de aproximações e trocas entre o grupo e o povo chileno.

Vuelvo para Vivir

Vuelvo para vivir foi escrita por Andrés Márquez, que teve como inspiração o concerto do Parque da Bandeira, um ato desenvolvido por artistas em 24 de setembro de 1988. Foi a primeira vez que o grupo se apresentou no Chile após o período do exílio. A mobilização era em prol da Campanha do “No” que defendia o fim da ditadura militar. Em outubro daquele ano, foi realizado um plebiscito para decidir se Pinochet continuaria no governo ou não, o “no” de Illapu venceu.

Os membros do grupo Illapu disseram que a recepção da população chilena ao seu regresso foi incrível. As pessoas esperaram os seus integrantes no aeroporto e mais de 100 mil estavam presentes no Parque da Bandeira. De acordo com Andrés Márquez:

Vuelvo para Vivir fue el retrato de nuestro país a través de cosas que tenías dentro, que ibas a volver acá, ibas a volver a encontrar a tu gente, ibas a volver a encontrar tu forma de vida, cosa que en muchos aspectos tampoco fue así.
Tradução: Vuelo para Vivir foi o retrato de nosso país através de coisas que tinha dentro, que ia voltar para cá, ia reencontrar seu povo, ia reecontrar seu modo de vida, algo que em muitos aspectos tampouco foi assim.

O compositor também disse que não era objetivo da banda escrever uma canção sobre o retorno e que o fato aconteceu naturalmente. Além disso, acrescentou que o Illapu jamais imaginou que Vuelvo para Vivir se converteria em um hino para a sociedade chilena.

Considerações finais

Vuelvo para Vivir se tornou um símbolo da resistência contra a ditadura militar e atravessou gerações de exiladas e exilados, que encontraram na canção certa familiaridade com a sua experiência no desterro. A obra fala sobre amor à pátria e suas paisagens e ao povo que habita o Chile. Vuelvo para Vivir também é sobre esperança, amizade, afeto, justiça, (não) pertencimento e recomeços, aspectos que fazem parte das vivências de inúmeras/os exiladas/os da América Latina.

“Vuelvo para Vivir tiene la fuerza de ser una canción que representa la unión entre la gente, los que vienen de afuera y los que están volviendo a ser libres, están volviendo a sair a la calle, a gritar, a decir lo que piensa.” Andrés Márquez


Tradução: Vuelvo para Vivir tem a força de ser uma canção que representa a união entre as pessoas, as que vêm de fora e as que estão se tornando livres novamente, estão voltando para as ruas, para gritar, para dizer o que pensam. André Márquez

Referências consultadas

Abya Yala, disponível em https://iela.ufsc.br/povos-origin%C3%A1rios/abya-yala

História do Illapu, disponível no site oficial do grupo musical: https://illapu.cl/historia/

Vuelvo amor … vuelvo vida, disponível em https://es.wikipedia.org/wiki/Vuelvo_amor…_Vuelvo_vida#:~:text=4%20Enlaces%20externos-,Historia,de%20volver%20a%20su%20pa%C3%ADs

Vuelvo para Vivir de Illapu el himno post dictadura de Chile, disponível em https://elblogdemusica.com/2021/02/25/vuelvo-para-vivir-de-illapu-el-himno-post-dictadura-de-chile/

Vuelvo para Vivir – Illapu, disponível em https://www.letras.mus.br/illapu/545610/

“Vuelvo vida, vuelvo a vivir en mi pais” Exilio, viaje solo de ida …, disponível em  https://imagenesparamemoriar.com/2014/09/07/vuelvo-vida-vuelvo-a-vivir-en-mi-pais-exilio-viaje-solo-de-ida

ILLAPU – Vuelvo para Vivir – Festival de Viña del Mar 2018 HD